
Flor e o Espinho
Maria Bethânia
Dor, distância e memória coletiva em “Flor e o Espinho”
Em “Flor e o Espinho”, Maria Bethânia acentua a passagem de “flor” a “espinho” como ruptura que impõe distância e preserva a dignidade. O pedido “Tire o seu sorriso do caminho / Que eu quero passar com a minha dor” marca a necessidade de espaço para o luto. A narrativa se organiza por imagens precisas: “Eu na sua vida já fui uma flor / Hoje sou espinho em seu amor” aponta a perda da delicadeza e a criação de uma defesa; “Espinho não machuca a flor” sugere ironia amarga e o compromisso de não ferir quem foi cúmplice. “É no espelho que eu vejo a minha mágoa” revela o confronto íntimo com a dor, enquanto “O sol não pode viver perto da lua” traduz a incompatibilidade de dois brilhos. Essa tessitura está em linha com Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito, autores do clássico de 1957, marcados pelo lirismo angustiado e pela meditação sobre tragédias do cotidiano.
Na versão de 2019, no projeto Mangueira – A Menina dos Meus Olhos, Bethânia incorpora trecho de Sombras da Água, de Mia Couto, que denuncia a proibição histórica dos tambores e afirma que, mesmo sem eles, “faríamos do corpo um tambor”. A intervenção desloca a dor amorosa para uma memória coletiva de repressão e resistência, aproximando o abalo íntimo da sobrevivência de uma cultura negra que insiste em pulsar. O par sol/lua ecoa a tensão entre luz e sombra do samba, enquanto a mágoa individual ressoa numa espiritualidade de resistência africana. O resultado é um lamento contido e orgulhoso: a distância preserva a dignidade, o silêncio vira ritmo, e o amor perdido se torna afirmação de vida e memória compartilhada.
O significado desta letra foi gerado automaticamente.



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