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Letra

    Minha mãe, uma mulher de grande força produtiva
    Acostumada a passar dificuldades na vida
    Guarda no peito uma triste decepção
    Neuroses da rua trazidas pelo meu irmão
    Márcio Gomes, ele assim foi batizado
    Pela família e pelos amigos de Neném era chamado
    Apesar de meio louco e do seu jeito diferente
    Minha vó dizia que ele era inteligente
    Uma revolta repentina toma corpo, alma e mente
    Desviando o destino que surpreendeu a gente
    Aos doze na CDD, aviãozinho
    Mamãe, entristecida, viu o filho em desalinho
    Até então, nada normal, sem esperança
    Quando criança, já tinha um bonde na infância
    Só chapa quente, na laje e na janela
    Pras mães, são bons meninos, são terroristas da favela
    De dia na rua, andando igual moleque
    Ouvindo rap, só alegria, aliviando o estresse
    A noite com foguete na mão
    Tirando plantão, atividade só na contenção
    Seriedade na indolação
    Sem diversão, atenção, tava sempre na missão
    De boca em beco, de berro e touca
    O sereno da madrugada deixava sua voz rouca
    Sem perceber se afundava no poço
    O que importava nessa hora era o dinheiro no bolso
    Se envolveu, se meteu com o desmanche de carro
    Já bebia cerveja e fumava cigarro
    A infância foi embora, o tempo foi passando
    A vida ia seguindo
    A morte ia chegando

    Neném! Tirava sua onda na favela
    Neném! Na hora de chapa, não tinha trela
    Neném! Andava com a morte na mão
    Meu irmão, que era meu herói, virou vilão

    Marcou demais ver a minha mãe chorando
    Que doideira tudo aquilo, o sonho foi se desmanchando
    Com vinte e poucos anos na cintura, a ilusão
    No seu pente a vida alheia, esse não era o meu irmão
    Criado com carinho, com amor e sacrifício
    Só eu sei o que é isso e como foi difícil
    Neném mudou e começou a mentir
    Dizia que era apenas um momento e logo ia sair!
    Meu irmão, meu problema, meu doente
    Se tornou agressivo e rebelde com a gente
    Se mostrou aos poucos o clone da revolta
    Chegava na nóia, ninguém ficava a sua volta
    Nosso laço de família não podia enxergar
    Que ele era um viciado alucinado pra matar
    Só Deus que podia operar na sua mente
    Mas Neném nunca teve fé suficiente
    Eu o vi se formar em doutor da maconha
    Apanhar várias vezes dos meganha, ai que vergonha!
    Observei a meteórica ascensão daquele cara
    A queda ia ser fatal, ele me ignorava
    Acho que tive meus motivos pra me revoltar
    Mas o rap prevalece! Eu consegui mudar
    Neném foi pra cadeia, ficou lá mais de um ano
    Pra nós uma eternidade, a lágrima rolando
    Mas com a certeza que voltaria melhor
    Voltou mais cabuloso, com a cabeça bem pior
    Saiu da cela, foi plantar em outra favela
    Abandonou a CDD
    E agora você vê! CV! CV! CV

    Neném! Tirava sua onda na favela
    Neném! Na hora de chapa, não tinha trela
    Neném! Andava com a morte na mão
    Meu irmão, que era meu herói, virou vilão

    Puxou um bonde, invadiu o Parque Esperança
    Por mais que o tempo passe, tenho isso na lembrança
    Neném chegou e nem ficou muito com a gente
    Assumiu o novo cargo de gerente
    Cadê o sonho de crescer com a família
    Mas quem diria, fez vergonha pra sua cria
    Mochila, pistola, no peito uma corrente
    Pente sobressalente, a foto da filha no pingente
    Lá vai neném, em minutos alguém é refém
    Que Deus te proteja e a vítima também
    As lágrimas secam e marcam o meu rosto
    Minha coroinha era a imagem do desgosto
    Na última vez que a gente desenrolou
    Ele chorou, falou que sua vida acabou
    Uma mistura de certeza adicionada a intuição
    Ouvi ele dizer que eu seria a salvação
    Da família e que não seguisse a sua trilha
    E vazasse da favela o mais depressa que podia
    Meu irmão me deu as costas e foi embora
    Pedi a Deus e orava toda hora
    Esse neguinho era pau pra toda obra
    Pressenti que algo iria acontecer até a aurora
    Bateram em minha porta; vieram avisar
    Que os vermes invadiram e acabaram de matar
    Um homem negro com apelido de neném
    Pra polícia, mais um bicho, um zé-ninguém
    Deixou família, mulher e saudade
    Não sei foi pro céu, alcançar a eternidade

    Neném! Tirava sua onda na favela
    Neném! Na hora de chapa não tinha trela
    Neném! Andava com a morte na mão
    Meu irmão, que era meu herói, e virou vilão


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