
A Geografia da Pele
Newton Jayme
Eu vim de longe do meu próprio cais
Trazendo mares que eu não atravessei
Carregando os nomes dos meus temporais
E as cicatrizes que eu nunca contei
Você chegou sem pedir morada
Como a manhã invade o quintal
Tirou poeira da minha estrada
Com uma delicadeza quase mineral
Teu olhar tem a cor das coisas raras
Das pedras que o rio escolhe lapidar
É uma pergunta acesa nas águas claras
Que o meu silêncio aprende a escutar
Eu sou um mapa feito de enganos
Você é o caminho que eu não desenhei
Meu coração, velho artesão de danos
Fez uma casa onde eu nunca morei
E se o amor for essa chama estranha
Que ilumina sem querer possuir
Eu quero ser a terra que acompanha
A semente que decide florir
Não quero o tempo preso em fotografia
Nem juramento escrito sobre o chão
Quero a vertigem da nossa alquimia
Misturando céu, barro e coração
Que a vida passe com suas marés
Que leve o medo que aprendi a guardar
Porque amar é deixar que os pés
Encontrem outro jeito de caminhar



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