Vida a Caminho

Newton Jayme

Na rua de dentro da minha janela
Passa um silêncio vestido de flor
Uma senhora varrendo a memória
E um rádio antigo cantando de dor

Tem um menino riscando o futuro
Num chão de giz quase apagado
E um homem sério contando os minutos
Como quem deve ao tempo emprestado

Ah, mas quem vê de fora não sente
O peso maneiro que a vida traz
Que a gente esconde no meio da gente
Pra parecer que tanto faz

No bar da esquina, um copo esquecido
Brinda sozinho a quem já não vem
E o garçom limpa o resto do mundo
Com o mesmo pano de sempre, amém

Tem uma moça guardando no peito
Cartas que nunca vai entregar
E um violão desafina o momento
De quem ainda insiste em sonhar

Ah, e eu aqui nessa mesma varanda
Conto histórias pra me distrair
Que a vida passa, tropeça, desanda
Mas sempre dá um jeito de rir

Se um dia a noite bater à sua porta
Não se assuste: Convide pra entrar
Que a dor, às vezes, quando se solta
Vira canção só pra não gritar


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