
O Nome do Amor é Doação
Newton Jayme
Há noites que desabam sobre os telhados
E a cidade esquece o próprio respirar
No rádio, mais um anúncio de guerra
Mais uma ferida do mundo aberta
Na mesa, pouco pão para partilhar
Mas alguém acende
Uma chama
No altar do coração
Sem saber se haverá depois
Ou sequer o nome do amanhã
E esse gesto mínimo
Atravessa o frio
Como quem guarda
A semente da aurora
Há um fogo oculto
Nas mãos cansadas
Uma presença mansa
Que ninguém vê
Quando tudo empurra
Para o abandono
Ela insiste em ser água pura
Em ser silêncio que sustenta
Em permanecer
No avesso da dor do mundo
Amor, fé-compaixão
Não o amor de superfície
Nem o brilho vazio das palavras
Mas o amor que serve e desce
Ao chão da queda
Para se fazer abrigo
De corpo inteiro
Amor, fé-compaixão
Janela acesa no incêndio
Pranto sustentado na perseverança
Deus aprendendo contorno humano
Vi uma viúva varrendo a calçada
Como quem recolhe o dia em restos
Vi um menino dormindo no ônibus
Abraçado ao cansaço de existir
E vi uma mulher repartindo sopa
Sem perguntar o nome ou a razão
Porque tocar a fome do outro
É tocar o nervo antigo da criação
Há um sagrado discreto
Nos quintais humildes
Nos corredores
Gastos de hospital
O Cristo passa
Sem anúncio
Sem clarim
Vestido de gente comum
Inteiro no gesto pequeno
Amor, fé-compaixão
Não palavra moldada
Mas joelho na madrugada
Misericórdia contra o orgulho
Amor, fé-compaixão
Ponte sobre os abismos
Pão que se multiplica em destino
Chama que aceita arder
Sem se extinguir
Fé sem obras é corpo sem alma
Grito antigo entre páginas de pedra
E o céu não mora no discurso
Ele acontece quando alguém reparte
Quando a fé veste o corpo da caridade
E caminha com os sapatos totais da solidariedade
Rompendo as correntes do desamparo
Quando as últimas janelas se fecharem
E o mundo inteiro se recolher em silêncio
Ainda haverá uma brasa escondida
Sob a cinza do sofrimento
E então se verá
Não era sonho
Nem miragem
Era o divino
Atravessando os homens
Com cheiro de eucaristia
Mesa aberta
Mãos feridas e coragem
Amor, fé-compaixão
Mais forte que a pedra
E o abandono
Amor, fé-compaixão
Morando no humano
E quando todas
As vozes se encontrarem
Como rios no mesmo mar
O céu dirá baixinho
Ninguém passou em vão
Se aprendeu a amar
E fez da vida
Um corpo inteiro em doação
Ficam a fé, a esperança e o amor
Mas o maior deles é o amor
Ágape, Ágape, Ágape
Fé-compaixão!
Fé que age pela caridade!



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