Moenda da Doçura

Newton Jayme

No dorso da tarde cansada
O vento aprende a chorar
Carrega folhas rasgadas
De quem não quis se curvar

E eu vi, na curva do mundo
Um coração sem lugar
Batendo em silêncio profundo
Sem nunca deixar de amar

Há criaturas como a cana
Mesmo postas na moenda
Esmagadas de todo
Reduzidas a bagaço
Só sabem doar doçura

Só sabem
Só sabem se doar

Doçura no corte mais frio
No gesto que fere sem ver
No escuro do desafio
Ainda insistem em ser

Como um rio que sangra claro
Por entre as pedras do não
Transforma o peso mais raro
Em leveza de louvação

Há criaturas como a cana
Mesmo postas na moenda
Esmagadas de todo
Reduzidas a bagaço
Só sabem doar doçura

E quando o mundo desaba
Em foices pelo chão
Há quem se faça palavra
Pra adoçar a solidão

Existe quem, no fim do caminho
Ainda estenda a mão
Feito um milagre baixinho
De açúcar no coração

Só sabem
Só sabem doar doçura

Há que endurecer
Mas sem deixar
A ternura ir embora
Porque é ela que faz
O amor nascer, sem demora

Existe quem, no fim do caminho
Ainda estenda a mão
Feito um milagre baixinho
De açúcar no coração

Só sabem
Só sabem doar doçura


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