
Amar em Silêncio
Newton Jayme
Eu quero contemplar teu corpo
Não como quem se perde em posse
Mas como quem aprende o silêncio
Que mora entre a pele e o tempo
Teu corpo não me chama, me acolhe
Como tarde quente sobre o mar
E eu chego sem pressa, sem mapas
Sem o desejo de invadir e dominar
Teu olhar é vinho antigo e sereno
Derramado em taça invisível
E eu bebo sem sede de senhorio
Só para me saber possível
Teu cheiro tem coisa
De quintal
De flor de laranjeira
De roupa no vento da manhã
De licor que repousa na mesa
Como se o mundo dissesse “amém”
E eu descanso meus olhos em ti
Como quem repousa a noite na brisa
Sem urgência, sem porta aberta
Sem a pressa que a vida improvisa
Se me tocas
Não me quebras
Me inventas
Se te aproximo
Não te tomo
Te escuto
Somos dois rios
Antigos se achando
No mesmo segredo absoluto
E o amor não grita
Sussurra por dentro
Como fonte escondida na pedra
Não é chama que devora o instante
Mas luz que em paz se integra
Então fica
Não como quem foge da realidade
Mas como quem encontra abrigo
No avesso mais íntimo do mundo
E se o tempo quiser nos levar
Que nos leve devagar
Sem ruído
Porque amar
Assim, sem alarde
É Deus escrevendo
No silêncio profundo
O amor não grita
Sussurra por dentro!
O amor não grita
Murmura por dentro!
Sussura, murmura por dentro!



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