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Hombre Preso Que Mira a Su Hijo

Pablo Milanés

Letra

Homem Preso Que Olha Para Seu Filho

Hombre Preso Que Mira a Su Hijo

Quando eu era como você, os mais velhos me ensinaramCuando era como vos me enseñaron los viejos
E também as professoras bondosas e míopesY también las maestras bondadosas y miopes
Que liberdade ou morte era uma redundância,Que libertad o muerte era una redundancia,
Quem pensaria em um paísA quién se le ocurría en un país
Onde os presidentes andavam sem segurança.Donde los presidentes andaban sin capanga.
Que a pátria ou a tumba era outro pleonasmoQue la patria o la tumba era otro pleonasmo
Já que a pátria funcionava bem;Ya que la patria funcionaba bien;
Nos campos e nas pastagens.En las canchas y en los pastoreos.

Realmente, garoto, não sabiam de nada,Realmente, botija, no sabían un corno,
Coitadinhos achavam que "liberdade"Pobrecitos creían que "libertad"
Era só uma palavra agudaEra tan sólo una palabra aguda
Que morte, era só grave ou plana,Que muerte, era tan sólo grave o llana,
Que prisões, por sorte, uma palavra esdrúxulaQue cárceles, por suerte una palabra esdrújula
Esqueciam de colocar o acento no homem.Olvidaban poner el acento en el hombre.

A culpa não era exatamente deles,La culpa no era exactamente de ellos,
Mas de outros mais duros e sinistrosSino de otros más duros y siniestros
E esses sim, como nos enfiaramY estos sí, como nos ensartaron
Na limpa república verbal e como idealizaramEn la limpia república verbal y cómo idealizaron
A vidurria de vaca e estancieirosLa vidurria de vaca y estancieros
E como nos venderam um exércitoY cómo nos vendieron un ejército
Que tomava seu chimarrão nos quartéis.Que tomaba su mate en los cuarteles.

Um não faz sempre o que querUno no siempre hace lo que quiere
Um não pode sempre, por isso estou aqui,Uno no siempre puede, por eso estoy aquí,
Te olhando e sentindo sua falta.Mirándote y echándote de menos.
Por isso não posso bagunçar seu cabelo,Por eso es que no puedo despeinarte el coco,
Nem te ajudar com a tabuada do noveNi ayudarte con la tabla del nueve
E te encher de boladas.Y acribillarte a pelotazos.

Você sabe bem que tive que escolherVos sabes bien que tuve que elegir
Outros jogos e que joguei a sério.Otros juegos y que los jugué en serio.
E joguei, por exemplo, de ladrõesY jugué, por ejemplo, a los ladrones
E os ladrões eram policiaisY los ladrones eran policías
E joguei, por exemplo, de esconde-escondeY jugué, por ejemplo, a la escondida
Se te pegavam, te matavamSi te descubrían te mataban
E joguei de pega-pega e era de sangue.Y jugué a la mancha y era de sangre.

Garoto, mesmo que você tenha poucos anos,Botija, aunque tengas pocos años,
Acho que preciso te dizer a verdadeCreo que hay que decirte la verdad
Para que você não a esqueça, por issoPara que no la olvides, por eso
Não te escondo que me deram choqueNo te oculto que me dieron picana
Que quase me estouraram os rins.Que casi me revientan los riñones.
Todas essas feridas, inchaços e machucadosTodas estas llagas, hinchazones y heridas
Que seus olhos redondos olham hipnotizadosQue tus ojos redondos miran hipnotizados
São golpes duríssimos, são botas na caraSon durísimos golpes, son botas en la cara
Dor demais para eu te esconder,Demasiado dolor para que te lo oculte,
Sofrimento demais para eu esquecer.Demasiado suplicio para que se me borre.

Mas também é bom que você saibaPero también es bueno que conozcas
Que seu velho calou ou xingou como um loucoQue tu viejo calló o puteó como un loco
Que é uma boa forma de calarQue es una linda forma de callar
Que seu velho esqueceu todos os números,Que tu viejo olvidó todos los números,
Por isso não poderia te ajudar nas contasPor eso no podría ayudarte en las tablas
E por isso esqueci todos os telefonesY por lo tanto olvidé todos los teléfonos
E as ruas e a cor dos olhos,Y las calles y el color de los ojos,
E os cabelos e as cicatrizesY los cabellos y las cicatrices
E em que esquina e em que bar,Y en qué esquina y en qué bar,
Que ponto, que casa.Qué parada, qué casa.

E lembrar de você,Y acordarme de ti,
De seu rostinho me ajudava a calar,De tu carita me ayudaba a callar,
Uma coisa é morrer de dorUna cosa es morirse de dolor
E outra coisa é morrer de vergonha.Y otra cosa morirse de vergüenza.
Por isso agora, você pode perguntarPor eso ahora, me podés preguntar
E acima de tudo eu posso responder.Y sobre todo puedo yo responder.
Um não faz sempre o que querUno no siempre hace lo que quiere
Mas tem o direitoPero tiene el derecho
De não fazer o que não quer.De no hacer lo que no quiere.
Chora à vontade, garoto,Llora no más, botija,
São besteiras que homens não choram,Son macanas que los hombres no lloran,
Aqui choramos todos,Aquí lloramos todos,
Gritamos, choramos, fungamos, berreamos,Gritamos, chillamos, moqueamos, berreamos,
Maldecimos, porque é melhor chorar do que trair,Maldecimos, porque es mejor llorar que traicionar,
Porque é melhor chorar do que se trair,Porque es mejor llorar que traicionarse,
Chorar, mas não esqueça.Llorar, pero no olvidés.

Composição: Mario Benedetti / Pablo Milanés. Essa informação está errada? Nos avise.

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