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A Ousadia de Ser Tacimar

Sandro Destro Lima

Quando a história encontra o canto

A canção nasce como espelho.
Cada verso recolhe um fragmento da vida de Tacimar e o devolve em som, ritmo e metáfora. Não se trata de biografia cantada, mas de ressonância poética — a música não conta a história; ela a encarna.

“Uma menina nascida / Pra não ser vencida”

Aqui está o eclipse.
O destino anunciado antes do primeiro passo. A infância entre lonas, palcos e estradas já indicava que aquela menina não aprenderia a baixar os olhos. A vitória não viria pela suavidade, mas pela permanência.

“Veio brilhar sob a lona / Da arte de rua / Nascida Tereza”

A lona é o teatro itinerante, a companhia do pai, o chão instável onde se aprende a resistir. Tereza é o nome civil, o corpo inicial, anterior ao mito. A canção reconhece essa origem antes da transfiguração.

“O eclipse, a Lua / Encarna a beleza”

O nascimento sob o céu escuro deixa de ser dado histórico e vira símbolo. Tacimar não reflete luz alheia; ela a transforma. A Lua não pede permissão para existir — apenas surge, inteira.

“No rádio ou TV / Causa alvoroço onde passa / Mas não se retrata / À essa gente que vê”

Aqui está a Tacimar pública.
A atriz da rádio, a mulher do escândalo, a figura que provoca espanto e julgamento. O verso traduz com precisão sua postura: ser vista sem se curvar, existir sem se explicar.
O refrão não descreve — proclama:

“É Tacimar”

O nome deixa de ser identidade e vira sentença.
A música faz o que a vida fez: substitui Maria Terezinha por uma presença maior, irredutível, que carrega “leveza, ousadia e poder”. Três forças que atravessam toda sua trajetória.

“E faz calar / Em banhos de amor onde a dor persistia em nascer”

A dor está ali: o abandono, o julgamento, o altar vazio. Mas a canção a dissolve em amor — não o amor romântico, e sim o amor como sobrevivência, como capacidade de continuar.

“Revelando a Vênus que faz qualquer homem tremer”

Tacimar deixa de ser apenas mulher para se tornar arquétipo. Vênus surge não como objeto, mas como força. A sensualidade aqui é domínio, presença, consciência do próprio corpo no mundo.

“Sua venustidade enterra promessas de altar”

O verso mais cruel e verdadeiro.
A música toca o ponto exato onde a biografia sangra: o casamento que não aconteceu, o altar que virou ruína simbólica. Mas não há lamento — há sepultamento. O passado é enterrado para que outra mulher nasça.

“Ousadia e verdade a quem quer liberdade de ser”

A canção compreende Tacimar como farol. Ela não representa apenas a si mesma, mas todas as mulheres que, ao ouvi-la ou vê-la, entenderam que era possível existir fora da obediência.

Síntese do paralelo

A narrativa histórica mostra o caminho.
A narrativa poética constrói o mito.
A canção sela o pacto entre as duas.
Tacimar viveu aquilo que a música canta.
A música canta aquilo que a história muitas vezes silencia.
Entre a lona e o altar, entre o rádio e o corpo, entre o escândalo e a beleza, Tacimar não pediu lugar: ocupou. E a canção, ao nomeá-la, não a explica — a eterniza.

Composição: Sandro Destro Lima. Essa informação está errada? Nos avise.

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