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Foto do artista Silvio Brito

Nos Becos da Vida

Silvio Brito


Pacato cidadão, vindo da Paraíba
Ou era Pernambuco, Ceará, não sei
Só sei que é lá de riba
Dezessete anos
Dezessete irmãos
Dez inda com vida

Saiu pelo Brasil, foi para São Paulo
Levou quase nada, o que mais pesava
Era um montão de calos
Pau pra toda obra
Vontade de sobra
Em busca de um trabalho


Ah, minha mãe
É mais bonito do que ocê pensa
Ah, meu pai
Arranjei serviço
Aqui num edifício
Abraço, tchau e bença


Primeiro salário, metade pra família
Aí comprou Ray-Ban,
Calça de Blue Jeans, rádio de pilha
Inda sobrou uns troco
De muita hora-extra
Ai, que maravilha

Conheceu uma moça no Ibirapuera
Morena bonita, jeito de artista
Flor de primavera
Ah, então danou-se
Ele apaixonou-se
Namorou com ela


Ah, minha mãe
É mais bonito do que ocê pensa
Ah, meu pai
To apaixonado, to quase casado
Abraço, tchau e bença


Largou do edifício, foi cavar metrô
Tentou outras coisas, fez de tudo um pouco
Só não assaltou
Diz que aquela moça
Casa-se com um moço trabalhador

Tiveram dois meninos, Jeferson e Cleiton
Gêmeos berram juntos, gêmeos mamam juntos
Um em cada peito
Tudo engano dela
Erro de tabela
Agora não tem jeito


Ah, minha mãe
É mais bonito do que ocê pensa
Ah, meu pai
Agora eu sou pai
Que nem cê é meu pai
Abraço, tchau e bença


Mas veio o desemprego e com o passar do tempo
O sonho que era doce acabou-se
A coisa foi ficando séria
Ela então danou-se
Desapaixonou-se
Fugiu da miséria

A alma dele, então, virou uma só ferida
Pacato cidadão, mais um na multidão
Perdido e sem saída
Vinte e sete anos
Dez de desenganos
Nos becos da vida

Ah, minha mãe
É mais doído do ocê pensa
Ah, meu pai
Coração ferido, mais que arrependido
Que saudade imensa

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