
Realista
Yannick Afroman
(É, negro memo não muda) e você que é branco já? (Não, vê só)
(Os brancos se ajudam entre os brancos)
(Os mulatos se ajudam entre os mulatos)
(E os negros?)
(Se lixam entre os negros) ah, não, deixa lá disso
(Meu irmão, não vale a pena, deixa disso, meu irmão) eu nunca disse, não
(Essa nossa raça não tem muitos problemas) não, não, não é nada
Isso então é complexo, eu sei bem (meu irmão, não agita só, tô a, tô a bazar mbora) ah
Ah, pá, sai daqui, pá
Mas de um coro memo, tem razão
Não sei como é que é na tua banda, mas aqui
Numa empresa, quando tem bué de claros, é porque pagam bem
Se tiver bué de negros, podes crer que o salário não convém
Há sítios que negro é barrado, mesmo bem apresentado
Mas o branco pode entrar de chinelo
Calção, um parte escorno ou de fato macaco
Você até fica fraco
Não é preciso ir na Alemanha, Brasil ou em Portugal
Em Angola, o negro discrimina o negro igual
Nenhum branco quer ser negro
Mas a maioria dos negros querem ser brancos
Seus pancos
Utilizam produtos que nem o Charles Bois
Fritam o cabelo, igualzinho Akwá
Um negro com lentes de contacto fica tipo um cambuá
Como é que não nos chamam de macacos? Auá
Mesmo aqueles brancos que lá não são ninguém
Aqui são todos chefes, uma vida se bem
Um salário que arromba
Quantos mangolés estão na Tuga a sofrer na obra?
Preto, macaco, toma banana
Por cima são discriminados
Mundele pode fazer vinte anos na África
Não muda seu sotaque, hábitos e costumes, tiro o chapéu
Mas o mbumbo, um ano só nas bandas, ja se dá de europeu
Até vêm te dizer
(Preto memo é atrasado, é)
É muito preconceito
Em Angola, só não temos complexo na bebida e no sexo
Pum, pum, pum, pum, pum, tô a abrir
Xé, um pula por aqui?
Tás perdido ou qualquer coisa assim?
(Não, esta casa pertence-me e vim recuperá-la)
Brinca bem
Tantos anos a viver aqui?
Ou me mata ou o quê
Não saio daqui nem com um contra feio
Fugiram da guerra
Agora estão a vir aqui como donos da terra?
(Oh, eu não sou culpado, pá
Eu não tenho nada a ver com os vossos problemas)
Só falta vir mais um mundele com papel
Dizendo que o país é dele
(Isso é racismo)
Eu não sou racista, sou realista
Mwangolé precisa de uma lição de moral
Pra se libertar da escravidão mental
Eu não sou racista, sou realista
Mwangolé precisa de uma lição de moral
Pra se libertar da escravidão mental
Não sei como é que é ali, mas aqui mudam
O mais lixado não é o pula, é o laton
(Eu sou laton, minha ex-namorada era black
Você sabe, eu não tenho nada a ver com isso)
Vieram da mistura, mas com negro não querem se misturar
Sempre a discriminar
Feio, ancorado ou matumbo se casam entre eles
Mas se for um mbumbo, tem que ser um daqueles
Ou é falado ou tem nota verde
Dizem que o mulato não se perde, é mentira
Nós é que fizemos a sorte deles, não admira
O nosso complexo é que lhes deu acesso
O negro quando agarra uma mulata, wawê
Só da maneira que estranha
Se for uma branca então
Tipo que já está no céu, Homem-Aranha
Há sítios você entra, funcionário são todos clarinhos
Negro é só um ou dois
Essa história não é de hoje
Não é preciso ser bom ou ter dom
Em Angola é mais fácil encontrar um emprego se fores branco ou laton
(Tô a andar muito no Sol, até tô a ficar escuro, possas)
Se preocupamos muito com a cor
Isto não é uma questão política, o próprio negro é que não se dá valor
Há negros que fazem filho mestiço pensando no seguinte
A cor deles como é de sorte, quem sabe, um dia vai ajudar a família
Ai, ai, ai
É difícil ver um laton que tem massa
Casar com uma dama pobre da minha raça
Ou a negra tem ou é filha do fulano
Pode ser engano
Mas a maioria das filhas ou filhos dos negros que têm dinheiro
Casam-se mais com pulas ou latons
Essa história já vem de longe
O mais engraçado é que negro quando já tá a ter um pouco de fama ou dinheiro
Só mulata é que é mulher
Lhe leva daqui, dali, a se exibir pra toda a gente lhe ver
(Xé, tá com uma latona?)
Há negras que só garinam com pulas
E há negros que falam memo assim: Eu só gosto de mulatas
(É o quê? É o gosto dele)
Amor não tem cor, isso é complexo da pele, acredita
Por isso é que hoje muitos latons dizem memo: A nossa cor facilita
(Isso é racismo)
Eu não sou racista, sou realista
Mwangolé precisa de uma lição de moral
Pra se libertar da escravidão mental
Eu não sou racista, sou realista
Mwangolé precisa de uma lição de moral
Pra se libertar da escravidão mental
Há quem quando lhe dizem: Ei, você fica bem escura
Só o desgosto no rosto
Agora lhe diz o contrário
Tás a ficar bem clarinha
Ai, obrigado, muito obrigado
Só a alegria, assim ganhou um dia
Eu nunca tive pesadelo
Melhor dizer, sonho de ser branco ou amarelo
Olha pra mim, uau, olhem pra mim, uau
Como adoro a minha pele de cacau
Na maior
Eu digo isso com cabeça erguida
O melhor presente que Deus me deu na vida
Foi de me ter feito escuro
Afroman puro, moreno
Cabrito, evita isso, meu irmão
Mestiços são negros em toda parte do mundo
Só em Angola é que não são
Negro ou branco
Nenhuma raça é superior ou inferior
Somos todos iguais, só há diferença na cultura e na cor
Desculpa se eu feri a sensibilidade ou passei a meta
Eu sei que isso dói
A verdade dói, mas constrói
Podes me chamar até de treta, pateta ou careta
Mas uma coisa é certa
A nossa sociedade precisa de uma mudança de mentalidade
Eu não sou racista, sou realista
Eu sei que angolano tem problema de interpretação
Por isso, atenção
Eu não tenho nada contra latons, nem pulas
Digo isso no fundo do coração
Eles não se dão de superiores
Nós é que nos sentimos inferiores
Nós é que temos que eliminar esse complexo de inferioridade
Fazer uma revolução mental
Para que no futuro, os nossos filhos possam viver de igual para igual
Sem preconceito racial
Senão, os nossos netos viverão numa nova era colonial
Por culpa de nós próprios
Se queremos mudar, esse é o momento
Porque ainda vai a tempo



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