Exibições da letra 24

Carolina Maria de Jesus

Zé Paulo Sierra

Letra

    Carolina de Jesus
    Quando breu, escreve luz
    Já me pus aos pés da cruz a pedir perdão
    Por todos que julgavam rebeldia
    Mas gozavam privilégios de nascer da cor do dia
    Hoje a reparação tem a minha exclamação
    Inspiração retinta
    Bitita frente aos ecos do açoite
    Quem assina a autoria é Maria cor da noite
    Adjetivei a minha história
    Pra mudar a oratória e reescrever meu nome
    A caricatura sem o lenço
    Emoldura o contrassenso
    De quem nunca teve fome

    Em versos eu falei com Deus
    Ensinei aos filhos meus
    O alfabeto da alforria
    É o povo quem dita o vocabulário
    Conduz o meu dicionário
    À Casa de Alvenaria

    Fiz da arte um papel resistente
    Dei ao lixo o valor de sonhar
    Escrevi pelas mãos do indigente
    Onde a pena não se cansa de lutar
    Fui censura vestida de prosa
    Um livro que toca a ferida
    Palavra que o asfalto não lia
    Mostrou que a favela existia
    Desafiei a vitrine do erudito
    A miséria foi um grito
    Do meu Quarto de Despejo
    Na parede branca da clausura
    Meu retrato é um prato cheio
    Contra a podre estrutura

    É verbo que sangra na carne da rua
    Clarão da justiça onde a noite é crua
    A dor e a glória que a Tijuca traduz
    Em poesia (Carolina de Jesus!)

    Composição: Orlando Ambrosio, Lucas Macedo, Jefferson Oliveira, Gabriel Machado, Robson Bastos, Júlio Pagé, Miguel Dibo, Serginho Motta. Essa informação está errada? Nos avise.

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