Mitaí
Aládio Dullius
Meu pai me chamou no galpão, numa manhã de cerração
Disse: Esse potro é teu, meu filho, cuida com o coração
Era marrom como a terra molhada, bonito de se ver
Com uma mancha branca na testa, parecia me entender
Me deu o nome Mitaí, não sei de onde veio
Mas virou meu irmão de campo, meu maior anseio
Seis quilômetro de estrada, de poeira e de barro
Eu na garupa do Mitaí, sem pressa e sem embaraço
Todo dia pro São Pedro, no trote manso a passos
Ele sabia o caminho, conhecia cada pedaço
Livro na mochila velha, e o sonho na cabeça
O Mitaí me levava, e a vida acontecia depressa
Ô Mitaí, meu cavalo, meu amigo de infância
Quantos anos se passaram, mas ficou a lembrança
Do teu pelo marrom brilhando, no Sol do meio-dia
Daquela mancha na testa que parecia poesia
Tu não era só um cavalo, tu era liberdade
Hoje carrego comigo, essa saudade
No recreio, eu te esperava amarrado no varão
Comia uma grama rala, com paciência de irmão
Os guri tudo riam: Lá vem o do cavalo!
Mas eu tinha orgulho, tu era meu cavalo baio marrom
Me ensinaste de lealdade sem nunca falar nada
Só no balançar da crina, na estrada empoeirada
Ô Mitaí, onde tu andas nas invernada do céu?
Será que ainda me esperas no portão do colégio como no tempo de guri, fiel?
Ganhei do meu pai um cavalo, ganhei da vida um amigo
Seis quilômetro viraram léguas, que levo comigo
Pelo marrom estrela branca, meu companheiro de verdade
Mitaí, tu vive pra sempre, na minha saudade



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