A história de É Preciso Dar Um Jeito, Meu Amigo, de Erasmo Carlos

Conheça a canção de Erasmo Carlos sobre a Ditadura Militar, presente no filme Ainda Estou Aqui.

Analisando letras · Por Rafaela Damasceno

18 de Janeiro de 2025, às 12:00


Você já parou para prestar atenção na música É Preciso Dar Um Jeito, Meu Amigo, de Erasmo Carlos? A história da composição do clássico do cantor tem grande relação com um dos períodos mais marcantes da política brasileira.

Erasmo Carlos no clipe de É Preciso Dar Um Jeito Meu Amigo
Reprodução / YouTube

A canção, lançada em 1971, faz referência à Ditadura Militar de forma implícita, já que os cantores da época precisavam transmitir suas opiniões por meio de metáforas, para fugir da censura. 

Quer saber o significado por trás de É Preciso Dar Um Jeito, Meu Amigo, de Erasmo Carlos, e a sua história? Confira a seguir. 

A história de É Preciso Dar Um Jeito, Meu Amigo, canção de Erasmo Carlos

Você já se perguntou qual a história da música É Preciso Dar Um Jeito, Meu Amigo? Erasmo Carlos lançou um clássico na década de 1970, que é lembrado até hoje como uma das suas principais músicas. 

Mas, além de ter marcado sua carreira, a faixa também representa um importante relato histórico dos sentimentos de um dos períodos mais tristes da nossa história: a Ditadura Militar. 

É Preciso Dar Um Jeito, Meu Amigo é sobre a ditadura?

O contexto histórico de composição de É Preciso Dar Um Jeito, Meu Amigo é a Ditadura Militar brasileira, mais especificamente um período denominado “Anos de Chumbo”. 

A partir de 1970, o regime alcançou o ápice da popularidade com o milagre econômico. Mas também foi o momento em que os militares mais censuraram os meios de comunicação – incluindo a música – e torturaram seus opositores.

Para não ser censurado, Erasmo Carlos se opôs ao regime militar a partir da metáfora de um narrador que acaba de chegar de uma longa viagem, cheia de obstáculos. Ao longo dos versos, ele menciona cenas de horror e reforça a necessidade de mudança dessa realidade. 

Assim, mesmo que não seja uma canção que se oponha explicitamente ao regime, É Preciso Dar Um Jeito, Meu Amigo é considerada uma obra de resistência e crítica à ditadura. 

Como É Preciso Dar Um Jeito, Meu Amigo foi criada?

Erasmo Carlos escreveu É Preciso Dar Um Jeito, Meu Amigo em parceria com seu amigo de fé e irmão camarada, Roberto Carlos

A faixa integra o disco Carlos, Erasmo, considerado um dos mais impactantes e sofisticados da carreira do cantor, com arranjos de Chiquinho de Moraes e Arthur Verocai. 

Esse trabalho é uma espécie de “divisor de águas” e suas canções marcam uma nova fase de Erasmo Carlos, que havia completado 30 anos na época. 

Depois de receber o apelido de “Tremendão” e arrasar o coração das garotas, ele aparece com letras mais maduras e reflexivas, que exploravam temas profundos como casamento, drogas, vida adulta e questões políticas. 

É Preciso Dar Um Jeito, Meu Amigo: significado da letra

De forma geral, É Preciso Dar Um Jeito, Meu Amigo traz consigo um sentimento de urgência e necessidade de ação. De forma implícita, Erasmo Carlos canta sobre a indignação das pessoas diante da realidade brasileira da época – os horrores da Ditadura Militar.

A longa caminhada

Eu cheguei de muito longe

E a viagem foi tão longa

E na minha caminhada

Obstáculos na estrada

Mas enfim aqui estou

Na primeira estrofe, Erasmo Carlos assume a posição de um viajante, que acaba de chegar. Ao viajar por uma longa estrada, ele relata os obstáculos e as dificuldades presenciadas por ele. 

Essas cenas podem ser interpretadas como os horrores provocados pelo regime militar. A censura das artes e dos meios de comunicação, a repressão contra a oposição… Sem muito esforço, conseguimos encontrar todos esses elementos dentro do verso “obstáculos na estrada”. 

O sentimento de vergonha e indignação

Mas estou envergonhado

Com as coisas que eu vi

Mas não vou ficar calado

No conforto, acomodado

Como tantos por aí

Diante de tudo que o viajante presenciou, ele se declara envergonhado e afirma que não vai ficar calado e acomodado. Foi assim que muitos brasileiros, ao tomarem ciência dos horrores da ditadura, se sentiram naquele período. 

Ao saber das torturas, dos sequestros e dos assassinatos, esse viajante não quer ficar parado, como muitos que “fecham os olhos” para a realidade. Uma referência a todos que sabiam dos casos mais horríveis e não faziam nada para mudar essa situação.

A necessidade de ação

É preciso dar um jeito, meu amigo

É preciso dar um jeito, meu amigo

Descansar não adianta

Quando a gente se levanta

Quanta coisa aconteceu

No refrão de É Preciso Dar Um Jeito, Meu Amigo, Erasmo Carlos expressa a sua vontade de agir diante dessa realidade atroz. A repetição desse verso evoca a urgência da busca por mudanças no Brasil. 

Para dar mais ênfase a essa ideia, ele ainda relembra momentos em que a união e a força das pessoas que “se levantaram” contra o regime conseguiu promover mudanças. 

As crianças são levadas

Pela mão de gente grande

Quem me trouxe até agora

Me deixou e foi embora

Como tantos por aí

No trecho acima, Erasmo Carlos canta sobre as crianças levadas pela mão de gente grande. Por um lado, essa pode ser uma referência à tortura e ao sequestro dos filhos de pessoas que lutaram contra a ditadura – mais uma cena lamentável e revoltante desse período da história brasileira.

Por outro lado, esses versos também podem se referir à manipulação política das novas gerações pelo regime autoritário. Uma espécie de alerta, para que os jovens não sejam alienados pela repressão. 

Recepção e impacto da música ontem e hoje

Desde seu lançamento, É Preciso Dar Um Jeito, Meu Amigo é uma letra profundamente reflexiva, que alerta sobre os perigos de um governo autoritário. É também um importante instrumento de luta e resistência contra esse tipo de regime. 

Em 1971, apesar de ser vista pelo público como uma canção de resistência contra a Ditadura Militar, ela foi liberada pela censura. Assim, o público recebeu a mensagem do cantor e pôde se inspirar na luta por mudanças. 

Mas não foi só durante o regime militar que a música foi usada como símbolo de resistência. Em 2024, ela foi incluída na trilha sonora do filme Ainda Estou Aqui.

Ainda Estou Aqui banner
Créditos: divulgação

O longa conta a história real de Eunice Paiva, viúva do político Rubens Paiva, que foi preso, torturado e morto pelos militares. Muito além do contexto histórico, a obra se comunica com o clássico de Erasmo, ao trazer a memória como importante instrumento de luta contra a repressão. 

Outras obras audiovisuais que usaram É Preciso Dar Um Jeito, Meu Amigo em suas trilhas sonoras foram a série Outer Banks, da Netflix, e a novela Amor de Mãe, da Rede Globo. 

Conheça outras músicas que fazem críticas sociais

A letra de É Preciso Dar Um Jeito, Meu Amigo, de Erasmo Carlos, tem uma história de luta contra injustiças e um governo político repressor. Conheça agora outras canções que também fazem críticas sociais.


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