A música durante a ditadura militar brasileira

História da música · Por Rhânia Marcela

31 de Março de 2020, às 16:00

No dia 1º de abril de 1964 ocorria o golpe civil-militar, que retirou do poder o presidente da época, João Goulart, e instaurou no país uma ditadura que duraria 21 anos, até 15 de março de 1985.

Com apoio de parte da população, que tinha medo da ameaça comunista, a influência norte-americana foi forte o suficiente para apoiar e auxiliar a implantação do governo que prometia frear a ameaça.

Músicas da Ditadura
Manifestação pelo fim da ditadura / Créditos: Reprodução

A partir disso, o país enfrentou um longo período de censura, impedimento da liberdade de expressão, autoritarismo e, futuramente, a institucionalização da tortura.

Hoje iremos relembrar algumas músicas e vozes que usaram da arte para lutar contra a censura e a opressão

Músicas censuradas durante a ditadura

Considerando um rígido critério de avaliação, algumas músicas foram impedidas de chegar totalmente ou parcialmente ao público. Vamos agora conhecer algumas delas, com suas letras e significados:

Apesar de Você — Chico Buarque

Chico até tentou dizer que a letra era apenas sobre um casal brigando, porém, a justificativa não funcionou, e a música acabou sendo censurada.

Com um forte significado, Apesar de Você conta com um refrão marcante e que reflete o sentimento daquele momento.

Após ter passado mais de um ano exilado na França, Chico voltou ao Brasil e expressou na canção toda sua decepção por não perceber mudanças significativas no país.

Apesar de você, amanhã há de ser outro dia

Cálice — Chico Buarque (part. Milton Nascimento)

Com um forte e duplo significado, a palavra cálice, que faz referência à oração de Jesus Cristo a Deus no Jardim do Getsêmane, também pode ser entendido como o cale-se da própria censura.

Inicialmente, Cálice foi composta e seria cantada junto a Gilberto Gil. Porém, ao tentarem apresentá-la em um show, em 1978, tiveram seus microfones desligados. Depois disso, Gilberto Gil nunca mais a regravou.

Contudo, Chico a registrou em seu disco Chico Buarque, lançado no mesmo ano.

Quero lançar um grito desumano
Que é uma maneira de ser escutado
Esse silêncio todo me atordoa
Atordoado eu permaneço atento

Entenda melhor o significado de Cálice.

Tiro Ao Álvaro — Adoniran Barbosa (part. Elis Regina)

Tiro Ao Álvaro foi censurada por “falta de gosto”, já que sua letra brinca com neologismos e apropriações sociais de certas palavras.

É uma ilustração prática da oralidade do paulista que foi totalmente desconsiderada durante a análise de censura.

De tanto levar frechada do teu olhar, meu peito até parece sabe o quê? Táubua de tiro ao Álvaro, não tem mais onde furar…

Meu Novo Sapato — Paulinho da Viola

A versão original de Meu Novo Sapato se chamava Meu Sapato e tinha trechos com metáforas, que remetiam ao cenário da época, mais especificamente, aos militares.

Claro que, para ser liberada e lançada, foi preciso atualizar a letra, sendo ela gravada hoje com novo título e com sua letra bem mais simplificada, sem tais metáforas.

Não tem orgulho, nem tão pouco amargura. Está voltado para o futuro

Pra Não Dizer Que Não Falei Das Flores — Geraldo Vandré

A canção ficou em segundo lugar no Festival Internacional da Canção de 1968, concurso de músicas nacionais e estrangeiras realizado no Rio de Janeiro e transmitido na televisão. Ocorrendo anualmente, o festival foi extremamente importante para a divulgação de músicas de protesto.

Pra Não Dizer Que Não Falei Das Flores foi um dos maiores hinos de resistência popular. A música foi censurada pelos militares após fazer muito sucesso. Sua letra convida e incita o povo a resistir, unir forças e lutar contra a violência.

Geraldo Vandré foi exilado em 1968 e vigiado pelos militares, que o impediram de realizar qualquer movimento político.

Nos quartéis lhes ensinam uma antiga lição, de morrer pela pátria e viver sem razão

Músicas marcantes da ditadura

Apesar de várias músicas serem censuradas, algumas passaram ilesas pelo crivo dos militares. Mas como tais artistas foram capazes de protestar e produzir suas canções sem serem barrados?

Artistas da MPB em protesto contra a Ditadura Militar
Artistas da MPB em protesto contra a Ditadura Militar / Créditos: Divulgação

Com criatividade, metáforas e duplos sentidos, muitas outras letras passaram despercebidas pela censura e também tiveram grande importância na história do país.

Com grande apelo social e de protestos, também marcaram o cenário brasileiro:

O Bêbado e a Equilibrista — Elis Regina

Com uma letra poética e totalmente política, O Bêbado e a Equilibrista é considerada até hoje o hino da anistia.

Há trechos que criticam explicitamente o exílio de alguns colegas artistas brasileiros. Além disso, também relembra as esposas do operário Manuel Fiel Filho e do jornalista Vladimir Herzog, assassinados sob tortura durante o período.

A alusão ao equilibrista é o próprio artista que, mesmo podendo se machucar a cada passo, mantém a esperança e faz o show continuar.

A esperança
Dança na corda bamba de sombrinha
E em cada passo dessa linha
Pode se machucar

Alegria, Alegria — Caetano Veloso

A música marcou o início do movimento Tropicalista e critica a tentativa de alienação do povo, impulsionando a cultura externa no país. Alegria, Alegria tem trechos que citam Brigitte Bardot, Cardinales e Coca-Cola para representar isso.

Escrita e lançada nos “anos de chumbo”, do governo de Médici, também representa o protesto ao impedimento do conhecimento. Nessa época, estudantes universitários protestavam contra a destruição de universidades com a implementação da censura.

Caetano ficou exilado em Londres por quase dois anos, se tornando persona non grata (ou seja: uma pessoa que não é bem vinda no país) até 1972.

Ela pensa em casamento
E eu nunca mais fui à escola
Sem lenço e sem documento

Entenda todas as referências e metáforas da letra de Alegria, Alegria.

Jorge Maravilha — Chico Buarque

Lançada em 1973, a música foi escrita com o pseudônimo Julinho de Adelaide para driblar a censura.

A letra de Jorge Maravilha parece uma relação entre sogro, genro e filha, mas o real significado tem ligação direta aos militares. O governante da época, o militar Geisel, odiava o Chico Buarque. Contudo, a filha do militar tinha apreço e gostava do trabalho de Chico.

E como já dizia Jorge Maravilha
Prenhe de razão
Mais vale uma filha na mão
Do que dois pais voando

Que As Crianças Cantem Livres — Taiguara

Taiguara foi o artista com mais composições barradas pela censura: 68 canções. Mesmo assim, manteve seu esforço até o lançamento de Que As Crianças Cantem Livres, em 1973. Depois disso, se exilou no mesmo ano, em Londres.

E que as crianças cantem livres sobre os muros
E ensinem sonho ao que não pode amar sem dor
E que o passado abra os presentes pro futuro
Que não dormiu e preparou o amanhecer…

É Proibido Proibir — Caetano Veloso

Recebida com muito protesto, vaias e um discurso extremamente acalorado de Caetano, É Proibido Proibir critica as mudanças culturais nos anos 1960, principalmente de seu ano de lançamento, em 1968.

Caetano, por ser um dos artistas mais ousados, era alvo dos dois lados: a direita não concordava com seu estilo e com suas críticas ao conservadorismo, afetando os “bons costumes”.

Já a esquerda não concordava com seu diferente estilo de criação, usando guitarras elétricas (considerada influência externa, do imperialismo norte-americano).

Dessa forma, os protestos no lançamento de É Proibido Proibir vieram alimentados de vaias e de agressões, como arremessos de verduras e frutas ao palco.

É
E eu digo não
E eu digo não ao não
Eu digo
É! Proibido proibir

Cantores exilados durante a ditadura

O período ditatorial, para o cenário musical da época, foi um grande causador de reviravoltas e de mudanças nos teores das letras.

Como espaço de protesto, cantores passaram suas emoções e seus pensamentos mais profundos para suas canções. Elas são histórias marcantes que ouvimos e lembramos até hoje.

Contudo, colocar esses sentimentos para fora era difícil, já que essas ideias provavelmente não seriam bem recebidas pelas autoridades do governo. Então, para garantir a segurança e até a liberdade de fala negada, muitos artistas precisaram sair do país.

A grande maioria foi exilada e alguns só realmente retornaram ao Brasil após 1979, com a Lei da Anistia. Saiba mais sobre os cantores exilados durante a ditadura militar:

Caetano Veloso e Gilberto Gil

Os dois foram presos em dezembro de 1968 com a alegação de desrespeitarem a bandeira do país e o Hino Nacional. Os dois só foram soltos em fevereiro do ano seguinte.

Caetano Veloso e Gilberto Gil exilados na Europa
Gilberto Gil e Caetano Veloso exilados na Europa / Créditos: Divulgação

Em fevereiro de 1969, Caetano e Gil fizeram um show de despedida e partiram para a Inglaterra. Só voltaram ao Brasil em 1972.

Chico Buarque

Em 1968 o cantor foi interrogado pelas autoridades, que alegavam que suas produções eram subversivas para o momento.

O cantor Chico Buarque quando jovem
Créditos: Divulgação

Em busca de sua segurança, após liberação militar, Chico foi para França, se apresentar em Cannes. Desse cenário, aproveitou e optou por continuar fora do país, indo viver com sua família na Itália, em Roma.

Raul Seixas

Em áudio gravado em 1988, Raul conta de sua prisão em 1974, além de sua tortura e seu exílio.

Raul Seixas
Créditos: Divulgação

Ele conta que apanhou, levou choques e foi mandado para Nova York, ficando um ano inteiro fora do Brasil.

A música como lembrança da ditadura

Essas foram algumas das várias marcas culturais que nosso país teve ao longo dos anos ditatoriais. É importante se lembrar da história de seu país e revisitar épocas como essa

Chico Buarque ditadura militar
Chico Buarque em protesto contra a ditadura militar / Créditos: Divulgação

Para isso, as canções são extremamente importantes, são retratos sonoros, vívidos e carregam muitas lembranças. Continue relembrando com a gente mais músicas sobre a ditadura militar no Brasil

Músicas da ditadura

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