Confira a análise da música Geração Coca-Cola

Analisando letras · Por Camila Fernandes

14 de Setembro de 2019, às 07:00

A banda Legião Urbana é política por natureza: como o próprio Renato Russo já disse, eles cantavam sobre a experiência de ser um jovem brasileiro vivendo em contexto urbano a partir dos anos 70. 

Banda Legião Urbana
Créditos: Divulgação

Geração Coca-Cola foi uma das primeiras músicas gravadas pelo grupo — a canção fala sobre a geração de jovens que viviam nas cidades na década de 70, que cresceram durante o regime militar e vivenciaram o início da era da globalização.

Cheia de referências, música se tornou um hino da juventude da época e um dos maiores sucessos da banda. Confira nossa análise de Geração Coca-Cola para entender de vez o significado da música!

Análise da letra de Geração Coca-Cola

Por causa da composição de Renato Russo, os jovens daquela época ficaram de fato conhecidos como a geração Coca-Cola. Quer entender melhor o significado da música? Aperta o play e vamos analisar verso a verso!

Primeira parte: o consumismo e os “estrangeirismos”

Quando nascemos fomos programados
A receber o que vocês
Nos empurraram com os enlatados
Dos U.S.A., de nove às seis

Primeiro, é preciso entender o contexto mundial: a globalização estava crescendo e o contato entre culturas de diferentes países estava se tornando cada vez mais forte. Desde o início, esse contato sempre esteve muito ligado ao consumo, tanto de produções culturais, quanto de filmes e de músicas e também de bens materiais: roupas, carros, e até alimentos.

A letra começa nos dizendo que as crianças daquela época já nasciam programadas para receber os produtos desse novo tipo de sociedade, marcada pelo forte capitalismo e pela dominação dos Estados Unidos. Os produtos enlatados, por exemplo, eram a última moda. 

Algumas pessoas interpretam esse primeiro parágrafo como uma crítica à geração anterior, aos pais dessas crianças, representados pela palavra vocês na segunda frase.

O último verso, entretanto, dá abertura para outra interpretação: esse “vocês” também pode ser a mídia, a televisão e suas propagandas direcionadas para as crianças, exibidas de 9 da manhã às 6 da tarde.

Desde pequenos nós comemos lixo
Comercial e industrial
Mas agora chegou nossa vez
Vamos cuspir de volta o lixo em cima de vocês

O começo do parágrafo é uma continuação da estrofe anterior. O lixo no primeiro verso fala sobre os alimentos industrializados e o fast food, mas também pode ser visto como uma referência aos programas de entretenimento (como os desenhos e os filmes) aos quais as crianças ficam expostas na TV. 

Nos dois últimos versos da estrofe o assunto muda e a música começa a falar sobre uma possível reação. A partir daqui, a música pode tomar dois sentidos um pouco diferentes: ela pode ser a expressão de uma esperança futura, ou a exaltação de um movimento que já tinha começado. Calma, vamos explicar! 

Depois da “invasão” da cultura exterior nas décadas de 70 e 80, houve um grande movimento pelo resgate das raízes brasileiras e pela valorização das produções nacionais, puxado pelos artistas e pelos universitários da época. Se quiser conferir, nós falamos um pouquinho mais sobre isso no post que conta a história da MPB

Post história da mpb

Por outro lado, essa também parece uma “ameaça” de uma geração que estava acordando depois de ser sufocada, pronta para causar uma revolução.

Segunda parte: é hora de agir

Somos os filhos da revolução
Somos burgueses sem religião
Somos o futuro da nação
Geração Coca-Cola

Chegamos ao refrão. Antes de continuar, vamos a uma contextualização histórica — do século 16 ao 19, aconteceram vários movimentos na Europa que ficaram conhecidos como Revoluções Burguesas.

A mais famosa delas foi a Revolução Francesa, em que a burguesia lutou para derrubar tanto os ideais da monarquia quanto os ideais da Igreja Católica, defendendo o capitalismo e os ideais de liberdade, igualdade e fraternidade. 

A Liberdade guiando o povo, pintura de Eugène Delacroix em comemoração à Revolução Francesa
A Liberdade guiando o povo, pintura de Eugène Delacroix em comemoração à Revolução Francesa / Créditos: Divulgação

Ele começa dizendo que somos os filhos da revolução, ou seja, somos consequência de tudo o que aconteceu no país até agora. Somos burgueses sem religião quer dizer que, ao mesmo tempo que são filhos da revolução, aquela geração também é a própria revolução.

Ao mesmo tempo, esse verso pode ser uma crítica ao ceticismo e ao consumismo dos jovens, constantemente lembrados de que são o futuro da nação. 

Depois de 20 anos na escola
Não é difícil aprender
Todas as manhas do seu jogo sujo
Não é assim que tem que ser

A quem essa estrofe se refere? Pode ser a mídia, os pais ou, a teoria mais aceita, o governo.

Depois de tanto tempo na escola, aprendendo segundo padrões rígidos de ensino, de fato não era difícil entender mais sobre o jogo político da época e começar a questioná-lo. Esse tempo de escola não é necessariamente literal, pode ser uma referência ao amadurecimento. 

A última frase pode ser tanto um questionamento (não é assim que aprendemos a ser?) quanto uma manifestação (isso é errado e não é assim que as coisas devem ser!).

Vamos fazer nosso dever de casa
E aí então vocês vão ver
Suas crianças derrubando reis
Fazer comédia no cinema com as suas leis

Essa estrofe é, ao mesmo tempo, uma ironia e uma fala de protesto em nome daquela geração, que afirma: apesar de tudo o que foi dito até agora, nós vamos fazer nosso dever de casa, ou seja, cumprir a missão que nos foi dada e mostrar nosso potencial. 

É a partir daí que o governo, a mídia e/ou os pais verão de fato a rebeldia das crianças que criaram, que são capazes de revolucionar, derrubar os mais altos poderes e rir do que foi definido como certo e errado. 

Mas por que fazer comédia com as leis? Renato Russo era um crítico da “hipocrisia social”. Enquanto leis duras eram impostas à população, no governo reinava a corrupção. Provavelmente era isso que ele estava criticando na música.

Uma verdadeira aula de história 

O Legião Urbana é famoso por suas músicas que trazem frases com críticas sociais e levantam reflexões importantes sobre temas como a corrupção, em Que País É Este, e o suicídio, em Pais e Filhos, que nós já analisamos por aqui

Como deu pra perceber, Geração Coca-Cola também não deixa a desejar nesse quesito: a música é cheia de referências históricas e críticas sociais — algo muito comum nas composições de Renato Russo que, junto com o Legião Urbana, nos deixou um grande legado e se tornou um dos maiores clássicos do rock nacional. 

Há quem diga que a música traz uma visão otimista sobre o futuro do país, que vivia uma época longa de instabilidade e começava a colocar a política nos eixos. Outros, pelo contrário, acreditam que Geração Coca-Cola é uma ironia e que manifesta, na verdade, a descrença de Renato em uma mudança real na sociedade.

Seja qual for a alternativa correta, ela não deixa de trazer ótimas reflexões sobre questões políticas e sociais do país.

Ouça mais Legião Urbana

Ouvir Legião Urbana nunca é demais, né? Sempre dá vontade de continuar escutando! Além dos grandes sucessos, a banda ainda tem várias outras músicas incríveis, que são menos conhecidas, mas mantém a mesma qualidade. Vem ouvir o lado B do Legião Urbana!

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