Conheça o significado da música Ouro de Tolo, de Raul Seixas

Analisando letras · Por Érika Freire

10 de Março de 2020, às 12:00

O sonho do brasileiro na década de 70 era poder comprar televisão e carro. Aí, o ousado e gênio controverso, Raul Seixas, vai lá e critica tudo isso criando uma letra cheia de sarcasmo, em Ouro de Tolo.

Raulzito se inspirou no costume dos falsos alquimistas que, na idade média, prometiam transformar chumbo em ouro. Daí vem o nome da música, que faz parte do álbum Krig-ha, Bandolo!, lançado em 1973.

Alquimista
Créditos: Divulgação

A música, que apresenta uma crítica ácida sobre os sonhos e anseios patéticos da sociedade, foi uma das principais responsáveis por projetar Raul Seixas para o sucesso nacional.

A sonoridade leve de Ouro de Tolo se contrapõe à letra que é um verdadeiro tapa na cara da classe média brasileira, e que até hoje faz todo o sentido para compreender nossos valores em tempos sombrios e marcados pelo ódio

Vamos nos aprofundar melhor no significado da música Ouro de Tolo?  

Significado da música Ouro de Tolo

A música Ouro de Tolo foi composta pelo próprio Maluco Beleza em um dos momentos mais complicados e violentos da ditadura militar brasileira

Por conta da letra repleta de críticas sociais e econômicas, alguns críticos até se surpreendem pelo fato da canção não ter sido barrada pela censura. 

Raul Seixas
Créditos: Divulgação

Na época, a parceria com o escritor Paulo Coelho já estava firme, e o autor sugeriu que Raul lançasse a música na Avenida Rio Branco, centro do Rio de Janeiro. Era uma tremenda estratégia de marketing e toda a imprensa foi convidada para participar do grande evento.

Raul apareceu munido do seu violão cantando Ouro de Tolo e a cena foi exibida até pelo Jornal Nacional, atingindo o povo brasileiro no horário nobre da televisão. A mensagem tinha sido passada. 

Se compreenderam as duras críticas e o sarcasmo de Raul ou não, a verdade é que a transmissão televisiva colaborou para impulsionar as vendas do disco Krig-ha, Bandolo! 

Capa do álbum Krig-Ha, Bandolo!, de Raul Seixas
Capa do álbum Krig-Ha, Bandolo!, de Raul Seixas / Créditos: Divulgação

Mais tarde, Ouro de Tolo foi escolhida pela Rolling Stone Brasil como uma das 100 maiores músicas brasileiras, ocupando o inestimável 16º lugar. 

Assim como as demais criações de Raul Seixas, Ouro de Tolo pode nos causar dúvidas e um certo mistério sobre a quem Raul se refere. 

Por estar em primeira pessoa, podemos entender que ele fala sobre a sua própria insatisfação diante da vida.

Porém, há trechos mais diretos, como e você ainda acredita que é um doutor, padre ou policial que está contribuindo com sua parte para o nosso belo quadro social.

O que fica bastante claro é que a letra de Ouro de Tolo reflete sobre a insignificância a respeito do modo como escolhemos viver. Vamos agora conferir trecho a trecho:

Análise da música de Ouro de Tolo 

Eu devia estar contente
Porque eu tenho um emprego
Sou um dito cidadão respeitável
E ganho quatro mil cruzeiros
Por mês

Na primeira estrofe de Ouro de Tolo, Raul fala da insatisfação diante da vida mesmo após ter conseguido conquistar um bom trabalho, dinheiro e ter se tornado um cidadão notável. 

É surpreendente como uma canção da década de 70 ainda se faz nova, atual. Afinal, boa parte das pessoas se encontram angustiadas mesmo depois de ter conseguido status e conforto financeiro. 

Eu devia agradecer ao Senhor
Por ter tido sucesso
Na vida como artista
Eu devia estar feliz
Porque consegui comprar
Um Corcel 73

Neste segundo trecho, a mensagem se torna mais clara de que Raul parece desabafar sobre a própria condição de cidadão e artista.

Ele tem sucesso e conseguiu comprar um Corcel 73, mas ainda não se sente totalmente grato.

Corcel 73, citado na música Ouro de Tolo
Corcel 73 / Créditos: Divulgação

Eu devia estar alegre
E satisfeito
Por morar em Ipanema
Depois de ter passado fome
Por dois anos
Aqui na Cidade Maravilhosa

Aqui, o trecho faz referência a um fato real da vida do cantor, que viveu uma fase bastante complicada quando se mudou de Salvador para o Rio de Janeiro para tentar oportunidades como músico. 

A tentativa não deu certo na primeira vez e Raul retornou à sua cidade. Porém, no lançamento de Ouro de Tolo, Raul já era um artista de sucesso e morava em Ipanema. Apesar disso, algo ainda lhe faltava. 

Praia de ipanema
Praia de Ipanema / Créditos: Divulgação

Ah!
Eu devia estar sorrindo
E orgulhoso
Por ter finalmente vencido na vida
Mas eu acho isso uma grande piada
E um tanto quanto perigosa

Raul questiona: a chegada do dinheiro e do sucesso não seria perigosa para nós, seres humanos? 

Teoricamente, muitos de nós carregamos a crença de que vencer na vida é conseguir bens materiais. Porém, Raul Seixas experimentou tudo isso, chegou ao estrelato e aqui nos revela a cilada que o sistema nos pregou. 

Eu devia estar contente
Por ter conseguido
Tudo o que eu quis
Mas confesso abestalhado
Que eu estou decepcionado

Neste trecho, além de toda angústia e descontentamento, a letra reforça que o buraco é ainda mais embaixo. 

Raul está decepcionado porque ele conseguiu tudo o que quis, mas parece que nada disso lhe trouxe satisfação com a vida. 

Porque foi tão fácil conseguir
E agora eu me pergunto: e daí?
Eu tenho uma porção
De coisas grandes pra conquistar
E eu não posso ficar aí parado

Ele apenas nos comprova que a busca não para. A gente consegue uma coisa, a plenitude não chega e seguimos correndo atrás de outros desejos. Como se desejar fosse um ciclo vicioso, terrível e sem fim

Raul relata neste trecho que muitas vezes é tão fácil conseguir algo e depois que se consegue, nos perguntamos: qual era o sentido disso tudo? Ele quer mais coisas a conquistar, e não pode parar. 

Eu devia estar feliz pelo Senhor
Ter me concedido o domingo
Pra ir com a família
No Jardim Zoológico
Dar pipoca aos macacos

Ah!
Mas que sujeito chato sou eu
Que não acha nada engraçado
Macaco, praia, carro
Jornal, tobogã
Eu acho tudo isso um saco

Essas duas partes se complementam e aqui vemos o humor bem ácido presente na letra de Ouro de Tolo, que sugere que programas típicos dessa sociedade, como a ida ao zoológico, ao clube ou à praia são sem sentido, um saco e inúteis. 

É você olhar no espelho
Se sentir
Um grandessíssimo idiota
Saber que é humano
Ridículo, limitado
Que só usa dez por cento
De sua cabeça animal

Neste trecho, a música intensifica a crítica ao ser humano por sua limitação e ignorância. Raul sugere o quanto é penoso se olhar no espelho todos os dias e se sentir um idiota. 

E você ainda acredita
Que é um doutor
Padre ou policial
Que está contribuindo
Com sua parte
Para o nosso belo
Quadro social

Eu é que não me sento
No trono de um apartamento
Com a boca escancarada
Cheia de dentes
Esperando a morte chegar

A parte seguinte menciona as funções do padre, policial e do médico, ironizando que eles acreditam contribuir para a melhora do quadro social. 

Porque longe das cercas
Embandeiradas
Que separam quintais
No cume calmo
Do meu olho que vê
Assenta a sombra sonora
De um disco voador

Ao falar sobre as cercas embandeiradas, Raul se refere à demarcação de propriedades. Assim, pode-se pensar tanto nas cercas que realmente separam quintais quanto nas fronteiras entre países. 

Para ele, não faz sentido nos preocuparmos com essas barreiras e nos dividirmos por elas, ele acredita que deveríamos nos unir e nos preocupar com algo maior, algo que está além de tudo isso. 

Aqui, Raul se volta para os seus reais interesses: a vida em outras dimensões, a existência de disco voadores, a busca pelo significado maior da vida além da matéria, além das fronteiras. 

Ah!
Eu é que não me sento
No trono de um apartamento
Com a boca escancarada
Cheia de dentes
Esperando a morte chegar

Porque longe das cercas
Embandeiradas
Que separam quintais
No cume calmo
Do meu olho que vê
Assenta a sombra sonora
De um disco voador

Neste trecho, Raul demonstra que se recusa a se acomodar à vida que ele tanto critica. Ele volta a reforçar que não vê sentido em seguir nessa vida tradicional esperando a morte chegar quando há tanto além disso para se preocupar.

A mensagem principal da música Ouro de Tolo é fazer com que a gente questione a vidinha que nos cerca, esse esforço diário que implica na perda do nosso tempo e valores.

Estamos vivendo falsas ilusões, buscando uma felicidade inalcançável, nos endividando para apresentar provas sociais e sermos aceitos aos olhos dos outros. Tudo isso pra que mesmo?

Ouro de Tolo fala sobre a nossa mediocridade e incapacidade de compreender o real objetivo da vida, que é o despertar da consciência. Mais uma bela obra de arte de Raul Seixas! 

O Letras toca Raul pra você! 

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