
Meu Pedaço de Chão
Luis H. Rocha
Lá no fundo do sertão, de tudo bem afastado
Onde a estrada vira chão, pouco ou nada é encontrado
O silêncio é companheiro de quem vive pra enxada
Sem prosa nem vizinho, vai tocando a própria estrada
O galo canta no puleiro, o Sol corta a escuridão
Do café sobe o cheiro, vai clareando o meu rincão
Já tem peão no terreiro, tratando o cavalo baio
Outro atiça o braseiro, é mais um dia de trabaio
Tem um banco na varanda, um cachorro de vigia
A vaca pintada Iolanda e a mula manca ventania
Vinte mil braça de planta, terra bruta de valia
Dois peão que não descansa, na lida noite e dia
Ai minha viola, fala baixo pra’reu cantar
Ai minha viola, fala baixo pra’reu cantar
A ilusão quer me levar, cada corda é uma história
Se a cidade me chamar, não vou nem escutar
Meu lugar é no sertão, aqui eu vou ficar
No banhado e na poeira, trabalhei com devoção
Fiz coivara, fiz fogueira, semeei cada estação
Plantei a vida inteira, com suor e oração
E na hora derradeira, a colheita foi danação
Nessa hora penso ir embora, na cidade me perder
Rezo pra nossa senhora, lembro o que ouvi dizer
Felicidade não tem hora, tem lugar certo pra viver
Um dia tudo melhora, é preciso agradecer
Ai minha viola, fala baixo pra’reu cantar
Ai minha viola, fala baixo pra’reu cantar
A ilusão quer me levar, cada corda é uma história
Se a cidade me chamar, não vou nem escutar
Meu lugar é no sertão, aqui eu vou ficar



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