O Fado de Maria Inácia

Luis H. Rocha

Das ilhas onde o fogo arde
E a terra ensina a sofrer
Trouxe o mar minha saudade
Sem ter sítio onde morrer

O capelo ficou para trás
Com seu vulcão a bramar
Mas foi destino, não foi paz
Que me fez atravessar

No porão da nau escura
Rezei sem voz e sem pão
Vi a morte na amargura
Se arrastando pelo chão

Ó destino traiçoeiro
Que não cansa de ferir
Dei-te tudo por inteiro
E roubaste o meu porvir

No porto dos dorneles
Ergui casa de ilusão
Entre o barro e os batéis
Plantei trigo, perdi chão

Meu filho, luz tardia
Meu amparo, meu viver
Foi-se numa noite fria
Sem poder se defender

Cinco golpes, diz o povo
Mas eu conto muito mais
Cada dia é um golpe novo
As feridas são iguais

Ó destino traiçoeiro
Que não cansa de ferir
Dei-te tudo por inteiro
E roubaste o meu porvir

Nas terras de sesmaria
O mal criou raiz
Com traição e aleivosia
Sangrou o meu petiz

Ficou Deus por testemunha
A noite por companheira
Pois justiça nunca vinha
Pra quem chora na ribeira

Ó destino traiçoeiro
Já não tenho o que sentir
Leva tudo, se és verdadeiro
Mas devolve o que perdi

Se nossa senhora ouvir
Esta dor que não tem fim
Guarde o antónio agostinho
E tenha piedade de mim


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