Sombras No Sertão (A Lenda De Bento)

Walber Costa

Não tinha medo o tal do Bento, era o que todos diziam
Mas o sino cortava a noite e os antigos já sabiam
Que quando o bronze badalava como aviso de coisa ruim
Bento sentia o passado chegando perto do fim
A porta rangeu bem devagar, sem ninguém precisar bater
E o frio que entrou com o vento fez a lamparina morrer

Das sombras surgiu um vulto que o tempo não apagou
Era o Zé do Cangaço Velho que a morte nunca levou
Ocê achou que era fácil virar outro sem pagar?
Bento apertou sua viola, sem coragem de encarar
Cada homem que ocê deixou, carrega ocê pelo chão
E nóis viemos cobrar essa dívida sem perdão!

Mais dois vultos se formaram, como poeira a se juntar
Não eram de carne e osso, mas estavam ali pra julgar
E cada olhar que surgia era um nome do passado
Gente que o Bento jurava ter pra sempre enterrado
A viola tremeu na mão, mas ele não quis largar
Se não podia fugir, só restava enfrentar

Tocou uma nota seca que ecoou pelo salão
E cada acorde que vinha era peso no coração
Eu não nego o que eu fui, nem peço pra esquecer
Mas se existe outro caminho, eu ainda vou correr!
Zé soltou uma risada que não parecia de gente
Ocê correu a vida inteira, mas nunca correu da mente!

O chão virou lembrança, o ar virou visão
E Bento viu cada morte na palma da própria mão
O menino de olhos abertos que um dia fez ele parar
Agora estava ali quieto, só esperando ele falar
A música ficou mais forte, mesmo sem ninguém tocar
E o peito de Bento aberto começou a sangrar!

Não era bala ou faca, era coisa bem pior
Era o peso das escolhas, o destino dando um nó
De joelhos na igreja, sem ter pra onde correr
Bento fechou os olhos sem saber o que ia ser
Se era morte ou castigo ou só mais ilusão
Mas pela primeira vez na vida, não puxou arma da mão!

E dizem que naquela noite o sino parou de tocar
E as sombras desapareceram sem ninguém explicar
Quando o sol veio nascendo, a vila voltou ao normal
Mas Bento não tava mais lá, nem vivo, nem coisa igual
Só a viola encostada no banco perto do altar
Com uma corda arrebentada que ninguém pôde afinar!

E quem passa por essa igreja, quando o vento resolve soprar
Diz que escuta uma nota triste que insiste em não acabar
Se Bento morreu ou sumiu, ninguém soube dizer
Mas no sertão onde o tempo cala
Tem história que insiste em viver


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