
A Tragédia de Carrapicho
Astrikos Katoikos
A caatinga tostava debaixo do estio
Calangos sumiam nas pedras rachadas
Urubus descreviam seu círculo sombrio
E o Sol ressecava carcaças inchadas
Carrapicho seguia no meio do bando
Cartucheira ao peito, bornal lateral
Lampião olhava, de quando em quando
Com aquela paciência que precede o mal
Mormaço seguia mordendo a distância
Moita Brava vinha curtido de estrada
Ninguém perguntava de onde a implicância
Crescia entre homens de vida acuada
Chegou certa hora, pararam no mato
O couro rangia, zumbia o varejeiro
Lampião chamou pelo tal Carrapicho
O resto compreendeu antes do companheiro
Carrapicho, Carrapicho
O Sol não quer saber
Moita Brava e Mormaço
Já sabem o que vai acontecer
Carrapicho, Carrapicho
A caatinga não dá proteção
Quando Lampião sentencia
Nem o diabo muda a decisão
Ninguém ali tinha pureza guardada
Cada qual carregava seu quinhão de horror
Havia nos couros a vida empedrada
Na boca, tabaco, aguardente e rancor
Carrapicho fitou os homens presentes
Procurou algum rosto disposto a intervir
Encontrou cartucheiras, semblantes inclementes
E a estrada comprida por onde não podia fugir
Moita Brava ficou perto da cena
Mormaço também permaneceu por ali
O sertão parecia aumentar a condena
Com pedra, espinho, mandacaru e umbuzeiro mirim
Lampião não precisava falar demasiado
A ordem corria entre couro e facão
Carrapicho percebeu-se cercado
Mais perto da morte que da explicação
Carrapicho, Carrapicho
O Sol não quer saber
Moita Brava e Mormaço
Já sabem o que vai acontecer
Carrapicho, Carrapicho
A caatinga não dá proteção
Quando Lampião sentencia
Nem o diabo muda a decisão
Ali não havia tribunal nem defesa
Papel, testemunha, recurso ou juiz
Só homens decidindo com brutal presteza
Quanto ainda valia um homem infeliz
O couro abafava o suor das testas
Moscas rondavam os cantos da boca
Ao longe, uma rês procurava nas frestas
Alguma folhagem entre pedra e soca
Carrapicho sentiu que o mundo diminuía
Cabia naquele pedaço de sertão
Cada segundo que ainda existia
Parecia alugado pela decisão
E aquilo que contam diverge nos anos
Cada narrador recompõe o ocorrido
Mudaram detalhes nas bocas dos humanos
Ficou Carrapicho no centro do sucedido
Carrapicho, Carrapicho
O Sol não quer saber
Moita Brava e Mormaço
Já sabem o que vai acontecer
Carrapicho, Carrapicho
A caatinga não dá proteção
Quando Lampião sentencia
Nem o diabo muda a decisão
Depois o bando tornou à jornada
Correia rangendo, metal e suor
Aquela paragem ficou abandonada
Ao lagarto, à mosca, ao espinho e ao calor
Lampião prosseguiu entre léguas hostis
Moita Brava também, mormaço também
Homens que às vezes pareciam febris
De tanto decidir quem valia ninguém
Não cabe coroa na testa de algoz
Nem glória no couro marcado de morte
O cangaço também devorava os seus
Sem perguntar quem era fraco ou forte
Carrapicho ficou dentro da narrativa
Preso entre versões que ninguém conciliou
A caatinga guardou sua parte cativa
E o resto morreu com quem presenciou
Carrapicho, Carrapicho
O Sol não quer saber
Moita Brava e Mormaço
Já sabem o que vai acontecer
Carrapicho, Carrapicho
A caatinga não dá proteção
Quando Lampião sentencia
Nem o diabo muda a decisão



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