Exibições da letra 2

O Massacre da Fazenda Patos

Astrikos Katoikos

A tarde apodrecia nos mandacarus
Moscardos bebiam no couro do gado
O Sol castigava os caminhos nus
E agosto chegava com bafo empestado

Vieram pela estrada, cobertos de couro
Cartuchos batendo nos flancos da sela
Corisco trazia o rancor de Angico
A morte de Lampião ardendo na goela

Na casa, café, uma oferta singela
A chaleira fervia, rangia o jirau
Ninguém pressentia, sentado à janela
Que a tarde pariria seu ventre infernal

Domingos Ventura voltou ao terreiro
E outros da casa vieram também
Corisco indagava, sombrio e certeiro
Acerca dos mortos tombados além

Fazenda Patos, agosto sem perdão
Seis cabeças seguem rumo a Piranhas
Ficaram seis corpos na vegetação
E a noite cevou suas muitas entranhas

A culpa chegara por versões dispersas
Histórias que o tempo jamais resolveu
Palavras viraram sentenças perversas
E o ferro completou o que ninguém esclareceu

Já pouco importava resposta ou defesa
Angico exigia vingança e tributo
O ódio adquirira uma fome acesa
Queria seis carnes pagando por luto

Velocidade tomou o punhal
A lâmina entrou onde a nuca termina
Um corpo tombava, seguia outro igual
O sangue empastava a poeira assassina

As vértebras cedem, os nervos se rompem
A carne resiste ao trabalho do aço
Mandíbulas frouxas ainda se movem
Quando a cabeça abandona o regaço

Fazenda Patos, agosto sem perdão
Seis cabeças seguem rumo a Piranhas
Ficaram seis corpos na vegetação
E a noite cevou suas muitas entranhas

Seis corpos ficaram privados da face
Seis vultos entregues ao pasto voraz
Moscardos pousaram na carne que nasce
Daquilo que a morte devolve aos animais

As cabeças foram levadas dali
Macabra resposta aos mortos de Angico
Piranhas teria de receber assim
O recado sangrento mandado por Corisco

Olhos opacos sob pálpebras tortas
Cabelos colados por sangue coagulado
As bocas, abertas, pareciam absortas
Num fato que nunca seria explicado

Nenhuma certeza ficou no terreiro
A culpa mudou conforme a versão
Quem disse? Quem soube? Quem viu primeiro?
Seis mortos não prestam declaração

Fazenda Patos, agosto sem perdão
Seis cabeças seguem rumo a Piranhas
Ficaram seis corpos na vegetação
E a noite cevou suas muitas entranhas

Depois vieram relatos partidos
Lembranças comidas na boca dos anos
Os vivos compuseram destinos perdidos
Razões, testemunhos, juízos humanos

Se havia certeza, perdeu-se na morte
Se havia segredo, ficou sem resposta
O ferro já dera aos Ventura outra sorte
E agosto fermentava a carne exposta

Corisco partiu pela mesma caatinga
Lampião continuava morto em Angico
Nenhuma cabeça remenda outra vida
Nenhum degolado ressuscita um amigo

Quando a noite desceu sobre a fazenda
Besouros entraram nas cavidades
A carne começava sua última contenda
Contra larvas, moscardos e viscosidades

Fazenda Patos, agosto sem perdão
Seis cabeças seguem rumo a Piranhas
Ficaram seis corpos na vegetação
E a noite cevou suas muitas entranhas

Não houve resposta depois da carnagem
Só versões disputando aquilo que havia
Seis cabeças cumpriram macabra viagem
E Patos amanheceu no outro dia


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