Conheça o significado da música A Maçã, de Raul Seixas

Analisando letras · Por Érika Freire

1 de Maio de 2020, às 19:00

Tudo o que vem de Raul Seixas nos coloca diante de infinitas possibilidades. Por isso, analisar a música A Maçã é um desafio. É incrível como suas composições rendem bons diálogos ainda nos dias atuais.

Raul Seixas
Créditos: Divulgação

Presente no álbum Novo Aeon, lançado em 1975, a música A Maçã foi escrita por Raul Seixas em parceria com o escritor Paulo Coelho. 

Entre os raulseixistas, assim como todos que se identificam com as músicas do cantor, a letra de A Maçã é interpretada como um manifesto ao amor livre, desprendido das armadilhas do ego. 

Porém, como Raulzito era um visionário, um grande experimentador do universo, nunca sabemos exatamente qual era o seu real objetivo ao criar letras cheias de simbolismos e que não apresentam apenas um único desfecho.

Quer tentar compreender e analisar a música A Maçã com a gente? Bora adentrar mais uma vez no rico mundo de Raul Seixas! 

Significado da música A Maçã 

Deixar o outro livre para viver as experiências que desejar. A princípio, esta parece ser a premissa da música A Maçã. Uma canção que fala sobre a liberdade de amar e deixar o parceiro à vontade, pois somente assim seria possível não desgastar a relação. 

Mas como nada de Raul vem mastigado, para tentarmos compreender um pouco sobre o significado da canção, é preciso falar do contexto em que o cantor estava imerso na época.

A música faz parte do álbum Novo Aeon, termo que o próprio Raul criou para se referir à chamada Nova Era ou Era de Aquário, abordada também por Aleister Crowley no Livro da Lei. 

Capa do álbum Novo Aeon
Capa do álbum Novo Aeon / Créditos: Divulgação

Raul era um assíduo leitor de Crowley, tanto que algumas de suas composições foram inspiradas nas ideias do ocultista.  

Em A Maçã, Raul defende que o ser humano se manifeste da forma que quiser. Ele é livre para amar, pois, de acordo com Raul, o amor só duraria em liberdade.

Análise dos versos música A Maçã 

Dê play na canção e acompanhe a análise dos trechos:

Se esse amor
Ficar entre nós dois
Vai ser tão pobre amor
Vai se gastar

O primeiro verso fala sobre a possibilidade de um amor se tornar medíocre quando fica fechado entre dois amantes. Essa é a teoria mais comum da canção. 

Podemos interpretar também como um conflito interno de Raul entre escolher uma vida comum ou se permitir “fazer o que tu queres”.

Se eu te amo e tu me amas
Um amor a dois profana
O amor de todos os mortais
Porque quem gosta de maçã
Irá gostar de todas
Porque todas são iguais

Duas pessoas dizem se amar, porém, se trata de um amor a dois profana, ou seja, são duas pessoas que desprezam as questões sagradas, que não se importam com o divino. 

Observe que Raul usa o termo amor de todos os mortais para se referir áquilo que é tradicional, básico, comum.

A maçã, do ponto de vista bíblico, é simbolizada como o fruto proibido. É a fruta associada ao pecado e pode ser interpretada como uma representação do órgão sexual feminino.

Porque quem gosta de maçã irá gostar de todas. Teria sido uma frase machista criada por Raul? Todas são iguais sob a ótica do compositor? 

Se eu te amo e tu me amas
E outro vem quando tu chamas
Como poderei te condenar
Infinita tua beleza
Como podes ficar presa
Que nem santa num altar

Aqui, a letra de A Maçã continua a enfatizar que o amor entre os dois é recíproco, por isso, seria um desperdício condenar a mulher diante da sua beleza e poder. 

Em e outro vem quando tu chamas, o personagem da canção sabe que a mulher não pode ficar presa como uma santa no altar. Ela precisa ficar livre para viver suas próprias experiências. 

Quando eu te escolhi
Para morar junto de mim
Eu quis ser tua alma
Ter seu corpo, tudo enfim
Mas compreendi
Que além de dois existem mais

Nesta estrofe, o personagem reconhece que no início ele teve sentimentos de posse em relação à mulher. 

Quis tudo o que era dela, corpo, alma. Mas se iluminou e compreendeu que existem outros universos além dos dois.  

Amor só dura em liberdade
O ciúme é só vaidade
Sofro, mas eu vou te libertar
O que é que eu quero
Se eu te privo
Do que eu mais venero
Que é a beleza de deitar

Uma das partes mais lindas da música, esse é um verdadeiro trecho poético que nos ensina sobre o amor. 

Que o sentimento só dura em liberdade, que o ciúme é uma manifestação egoísta e que mostra o quanto o outro está desconectado de si mesmo.

A beleza de deitar seria o ato sexual em si? Ou pode ter relação com o momento de ócio, de pensamento livre, de não fazer outra coisa a não ser permitir que a sua mente se expanda?

Outro olhar a partir do clipe de A Maçã

Essa interpretação que vimos é a mais tradicional e defendida pela maioria dos fãs. Mas e se nos aprofundarmos um pouquinho mais?

Quando você assiste ao videoclipe da música A Maçã, é como se toda a teoria do amor livre caísse por terra. 

No clipe, vemos Raul Seixas como um indivíduo bastante tradicional que acorda cedo, coloca o seu terno, pega o metrô lotado e vai trabalhar num escritório. 

Em meio a burocracias do dia a dia, Raul parece infeliz, desanimado; está visivelmente insatisfeito com a vida que leva. 

O autor Isaias Costa, do blog Universo de Raul Seixas, faz uma interpretação bem interessante sobre a música e abre uma perspectiva diferente: a canção se trataria de um diálogo entre a mente e o coração de Raul.

Como sabemos que ele era um universalista e um grande buscador das questões além da matéria, a interpretação de Isaias faz bastante sentido. Isso porque, de fato, o clipe não faz qualquer conexão com relacionamentos amorosos e sexuais. 

É bem provável que ele estivesse mostrando o seu conflito entre ter que viver uma vida normal, cotidiana e sem grandes emoções, ao invés de se entregar aos desejos do coração e à conexão com a natureza

No clipe, tanto o quarto de Raul quanto o escritório onde trabalha, estão no meio de uma floresta. Isso é bastante simbólico.

E aí, com qual dessas interpretações você se identifica mais? De todo modo, A Maçã é mais uma crítica ao modo de viver e ao comportamento medíocre do homem moderno, coisa que Raul fazia tão bem em suas letras. 

É só pedir que a gente toca Raul! 

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