Confira a análise da música João e Maria, de Chico Buarque

Analisando letras · Por Renata Arruda

23 de Março de 2021, às 12:00


João e Maria é uma das mais encantadoras músicas de Chico Buarque. Gravada por Nara Leão no álbum Meus Amigos São Um Barato, de 1977, a valsinha conta com um dueto entre os cantores, que reforça a doçura da letra.

Chico Buarque e Nara Leão
Chico Buarque e Nara Leão / Créditos: Divulgação

Com uma linguagem poética e versos que remetem ao universo infantil, Chico assume a voz de criança para narrar a história de um relacionamento que chega ao fim, como uma brincadeira de faz-de-conta.

Como não poderia deixar de ser, a letra acabou ganhando várias interpretações — inclusive a de que seria um protesto contra a ditadura. Vem conferir nossa análise de João e Maria e saber mais sobre a bela canção de Chico Buarque!

Análise da música João e Maria, de Chico Buarque

A história da música João e Maria começa em 1947, quando Chico Buarque tinha apenas três anos. Isso porque a melodia foi composta pelo mestre Sivuca nessa época e, originalmente, era mais pesada, melodiosa e romântica.

Sivuca
Sivuca / Créditos: Divulgação

Em uma entrevista concedida em 1986, Sivuca falou sobre a letra de Chico:

Ele colocou tudo no passado. Porque quando ele tinha três anos, só falava assim, exatamente desse jeito. Então aproveitou o gancho e colocou a vivência dele. E saiu uma das melhores letras que o Chico já fez.

João e Maria: uma canção infantil 

No livro Chico Buarque: Histórias de Canções, o cantor explicou como surgiu a parceria e a composição da música, cuja letra fora escrita em 1977:

Ele fez a música, que ficou se chamando João e Maria. Ele mandou uma fita com uma música que ele compôs em 1947, por aí. Eu falei: ‘Mas isso foi quando eu nasci.’ A música tinha a minha idade. 

Quando eu fui fazer, a letra me remeteu obrigatoriamente pra um tema infantil. A letra saiu com cara de música infantil porque, simplesmente, na fitinha ele dizia: ‘Fiz essa música em 47.’ Aí pensei: ‘Mas eu criança…’ e me levou pra aquilo. Cada parceria é uma história.

Naquela época, Chico estava em uma fase de compor músicas infantis e havia acabado de adaptar o musical italiano Os Saltimbancos para o português. Um dado interessante é que a peça, apesar de infantil, também tratava de temas políticos.

E neste contexto surgiu João e Maria, uma canção sobre um relacionamento, ou um ciclo, que chega ao fim.

Agora eu era o herói
E o meu cavalo só falava inglês
A noiva do cowboy
Era você além das outras três
Eu enfrentava os batalhões
Os alemães e seus canhões
Guardava o meu bodoque
E ensaiava um rock para as matinês

Na primeira estrofe, o personagem da letra se sente como um verdadeiro herói dos filmes americanos: é o cowboy que enfrentava batalhões de soldados, defendia o país dos nazistas e, no fim do dia, ensaiava o rock para impressionar as garotas nas matinês.

Uma curiosidade sobre esta estrofe é que, ao fazer a letra, o próprio Chico não entendeu o que ele mesmo quis dizer no verso e o meu cavalo só falava inglês

Ao perguntar o que o arranjador Francis Hime achava, este respondeu: Eu acho que é um cavalo muito educado.

Agora eu era o rei
Era o bedel e era também juiz
E pela minha lei
A gente era obrigado a ser feliz
E você era a princesa que eu fiz coroar
E era tão linda de se admirar
Que andava nua pelo meu país

A canção segue na fantasia do narrador, que se imagina como rei, bedel e juiz. Misturando os tempos verbais, como faria uma criança, ele decreta que sua única lei era que todos fossem obrigatoriamente felizes.

Não, não fuja não
Finja que agora eu era o seu brinquedo
Eu era o seu pião
O seu bicho preferido
Sim, me dê a mão, a gente agora já não tinha medo
No tempo da maldade acho que a gente nem era nascido

Apaixonado, ele quer se entregar completamente à sua princesa amada, se colocando como a criatura, ou mesmo o objeto, preferido dela. Ele sente-se seguro, já que, em sua inocência, acredita que o tempo da maldade já tenha ficado para trás.

Agora era fatal
Que o faz-de-conta terminasse assim
Pra lá deste quintal
Era uma noite que não tem mais fim
Pois, você sumiu no mundo sem me avisar
Agora eu era um louco a perguntar
O que é que a vida irá fazer de mim?

No entanto, todo conto de fadas chega ao fim. Com a partida repentina da pessoa que ama, o narrador sente-se perdido em uma noite que não tem mais fim. Tudo é obscuro pra ele, que perde seu propósito na vida com o término da sua fantasia.

Outros significados da música João e Maria

Embora Chico tenha declarado que sua intenção era compor uma música exclusivamente infantil, muita gente acredita que o compositor tenha apenas se apropriado de uma linguagem lúdica para criticar regimes autoritários.

Assim, além da clara referência aos soldados nazistas, Chico ainda estaria falando dos bedéis, inspetores disciplinares que na época da ditadura atuavam como dedos duros nas universidades, e juízes que serviam ao regime.

Chico Buarque ditadura
Chico Buarque em protesto contra a ditadura militar / Créditos: Divulgação

Na sua fábula, esses agentes se uniriam todos na figura do narrador, que sonhava em implantar uma única lei: a felicidade de todos, em contraste com os anos de censura, perseguição e horror.

Outra pista estaria na estrofe final. Por exemplo: versos como Era uma noite que não tem mais fim seriam uma referência ao período de trevas no qual o país viveu durante o governo Médici.

Da mesma maneira, o trecho:

Pois, você sumiu no mundo sem me avisar
Agora eu era um louco a perguntar
O que é que a vida irá fazer de mim?

Poderia estar se referindo às pessoas exiladas e desaparecidas pelo regime, com o narrador se perguntando qual seria o seu próprio destino.

Uma análise de Apesar de Você

Gostou de saber mais sobre a música João e Maria? Então você não pode perder a nossa análise de Apesar de Você, famosa canção de Chico Buarque sobre a ditadura.

análise apesar de você

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