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Pegadas na Areia

Newton Jayme

Uma noite, o mar
Abriu-se em temporal
E engoliu minha esperança
Sem deixar qualquer sinal

A Lua
Punhal de prata cega
No ventre do mundo
Desenhava ilusões
Em seu silêncio profundo

Eu vagava entre espumas
Como quem implora calor
Enquanto o céu
Pendurava lembranças
Num varal de tanta dor

Vi retratos
E cenas da vida
No espelho da água escura
Tempos de rebeldia e vício
Cada passo, um naufrágio
Cada instante, um precipício

E havia dois rastros na areia
Correndo em direção ao fim
Um nascia do corpo cansado
O outro eram Teus passos
Que me buscava em mim

Mas, quando o mar mordia as margens
E a alma perdia o horizonte-farol
Quando a morte acendia suas intrigas
Sob o imenso azul-lençol

À deriva, debaixo do Sol

Atravessei a areia dilacerado
Com os Joelhos cobertos de sal
Como quem busca uma porta
No mais íntimo do vendaval

Olhei para trás, com medo
E vi apenas um risco no chão
Como uma águia
Machucada e solitária
No contorno da escuridão

Então gritei ao vento

Por que me deixaste assim
Se juraste caminhar comigo
Até o fim?

E o mar silenciou por dentro
Como um templo depois da oração
E Tua Voz desceu sobre a noite
Mansa como luzeiro além da visão

Meu amado filho, quando viste
Apenas um rastro no chão
Não eram teus pés doloridos –
Era Eu te carregando nos braços
Consolando teu coração

Desde então eu sigo no caminho
Mesmo quando o escuro desce
Pois quem já descansou em Deus
Não se perde, apenas resplandece

Nunca mais anda sozinho
Reconhece o Meu abraço
Até no meio da aflição

E continuei a escutar
No abismo das águas
A mesma Voz
Mais profunda que a tormenta
Mais intensa que as marés
Que movem os oceanos da amplidão

Filho da terra e da lágrima
Quem te falou em abandono?
Eu ando contigo nas tribulações
Que rasgam teus dias pela estrada
Mesmo quando teus olhos cansados
Já não alcançam a madrugada

Quando o desespero
Erguer seus mares
E a dor fechar
Teus caminhos
Será Minha mão
Invisível e eterna
A sustentar teu espírito abatido
Sobre os abismos mais sombrios

Nenhuma noite devora
Aquele que atravessa o sofrimento
Com os olhos voltados para Mim –
Como estrelas que não se apagam
Mesmo submersas na solidão

Pois sou Eu quem
Transforma decepções em asas
E faz da tua cruz uma escada de luz
Erguida sobre os vazios do mundo
Rumo ao céu sem fim

Ó Senhor, meu Deus
Foi na ausência dos meus passos
Que descobri a presença dos Teus
Quando a noite feriu minhas rotas
E a areia bebeu minhas lágrimas
Eras Tu quem me carregava nos braços
Com ternura de Pai e amor apaixonado

E eu, perdido
No mais profundo da tempestade
Era conduzido rumo ao lugar
Onde o choro se desfaz
E a morte se curva diante
Da Vida plena

Sim, Eu te resgatei
Chamei-te pelo nome
És precioso
Aos Meus olhos

És Meu
Só Meu
E nada arrancará teu ser
Das palmas das Minhas mãos


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