
RIO ARAGUAIA
Newton Jayme
Na paisagem antiga e desenhada
O vento consola o chão machucado
Cada raiz, de tão forte e calada
Guarda um amor nunca revelado
O ipê-amarelo acende o segredo
Feito um lampião dentro da estação
O tempo aprende, sem nenhum medo
A soletrar saudade no pó da sequidão
Araguaia, espelho inteiro
Leva o céu sem se partir
És um eterno seresteiro
Que faz o imenso cerrado florir
Teu corpo ensina à corrente
Que o longe mora no voltar
Quem bebe a água da nascente
Leva um rio dentro do olhar
No silêncio torto do pequizeiro
O Sol amadurece o quintal
Cada folha é um mensageiro
Do evangelho vegetal
A seriema risca a tarde
Com sua agulha de cristal
E a Lua costura, sem alarde
O manto azul que espanta o mal
Há quem procure ilusão
Ouro, fumaça e vaidade
Há quem persiga outra paixão
Sem perceber a eternidade
Porque toda riqueza se esconde
Na sombra breve da solidão
E o tempo leva para longe
Os que abandonam o coração
Araguaia
Sangue natural e sereno
Veia aberta do sertão
Quando o cerrado parece pequeno
Cabe inteiro no coração
E se um dia a seca perdurar
Vestida de cinza sobre o capim
Que o rio recorde a cada criatura
Toda nascente alimenta um jardim
Quando a última estrela apagar
E o silêncio beijar o tempo sem fim
Se ainda houver um nome nas águas
Que seja o teu nome em mim
Somente em mim
Porque o Araguaia conhece o destino
Sem nunca deixar de sonhar
E eu só virei amor inteiro
No instante em que fui te amar
No dia em que fui
Às tuas águas amar
Araguaia
Cenário natural do amor



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