
Campo e Cimento
Volmir Coelho
A lua surgindo em vulto
Luzes em efeito avenida
Embaixo de um viaduto
Um breu esconde feridas
Fogueira de papelão
Contrasta com a do neon
No espelho das vitrinas
Às ruas uma menina
Negra alma busca a luz
Sonhando um carro importado
Com o corpo magro alugado
A madrugada cedeu
Num canto um frio de cimento
Estropeado ao trote lento
O outro busca a sua sorte
Mescla de homem e cavalo
Com o cabresto a sujeitá-lo
Puxando o peso da morte
Assombrosas criaturas
Paridas das sepulturas
Vagam no escuro da praça
E no novo cativeiro
Vão acendendo palheiros
Com a pedra que alucina
Pra fugir de uma rotina
Que, na clausura dos dias
Aos poucos perdeu a graça
Se quebra então o encanto
Fantasmas voltam às cruzes
Borrando a sombra no breu
Pelas praças e avenidas
Dormem almas esquecidas
Há muito tempo de Deus



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