Alfaiataria (Um retalho, um remendo, um recorte)

Wendell Soares

Letra

    Amanhece outro dia sem ir ao seu encontro
    Num aperto mais frouxo que gola sem cós
    A lembrar que é impossível viver entre dentro de nós
    Que até pode tentar, mas não passam de pesponto

    O improviso me sangra, a saudade, a máquina cala
    Pois nem ela se atreve a ligar, costurando sozinha
    O carinho que dobra e, na dobra, embola na linha
    Desmanchando em vazio que enche a cortina da sala

    A alma fica nua, não tem jeito
    Não até que você volte
    Sem você aqui, tudo perde o molde
    Parece um retalho, um remendo, um recorte

    Se não voltar, me diz como se embrulha
    A roupa da alma que pede overlock
    Porque trespassar tanta dor pela agulha
    Não é arremate até ter o seu toque

    E de perto teu leito me inspira loucura
    Porque só me rasgo o que resta por dentro
    Caindo do bolso um incompleto aviamento
    Que tapa no tempo e tapeia e tortura

    Na seda do tempo, um retrós de aflição
    Que quer entre dentes, entrave, entretela
    Dar vinco e fingir que o abrir da janela
    Me prega sem classe o mais feio botão

    A alma fica nua, mas nada abraça
    No fim da reprise de outra novela
    O dia que cinza não abre a janela
    Porque sobra pranto e assim falta graça

    E se não voltar, me diz como se embrulha
    A roupa da alma que na galoneira
    Insiste em passar toda a dor pela agulha
    Que precisa ver que se sentou
    Na sua velha cadeira

    Não vai servir pra nada essa tesoura
    Se não puder cortar nossa distância
    Tão pouco essa fita medir o afeto
    Se a métrica que meço é memória e infância

    Que esconde esse aroma só seu de alfazema
    Abrindo teus braços sem ter protocolo
    Pra me repousar no aconchego do colo
    E me proteger do mais tenso problema

    Ouço Montenegro, Adriani e Roberto
    E todos parecem gritar o seu nome
    Enquanto atravesso outra noite insone
    Buscando tua voz no que existe por perto

    Então por que a vida franziu a bainha
    Num pano tão torto, incerto, zigue-zague
    Que vai e que volta e antes que estrague
    Exijo outra vida, essa não é minha!

    Eu lembro que fomos alfaiataria
    E isso costura amor, não adeus
    E mesmo que outros chamem de Maria
    Só dois dizem mãe e estes dois
    Sempre foram só seus

    Porque você deixou a gente a te esperar

    Composição: Wendell Soares, Batata Jr.. Essa informação está errada? Nos avise.

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