
Desde sempre, sexta
Wendell Soares
Quinta era pra doer bem mais
Mas a vida trouxe sexta e pronto
Fez pulsar o corte aberto, dia a dia
E o repouso merecido do cuidado nos cuspiu no rosto
Algo fiel ao que sinto e ao que dói também em outro
E não há sequer um minuto que não nos faça querer gritar
Porque cada hora que nos consumiu
Apedrejou canalha, hostil e sorrindo
Que ninguém tinha coragem
De aceitar que a luz que você trazia
Se apagava aos poucos no imenso o vácuo do colo
A nos lembrar que nenhuma palavra consegue tapar
Ferida de filho
Então se perdeu o que já estava perdido
Entre o que era errado e se tornou possível
Tentamos nos apegar nas canções da memória
Mas elas também foram parte
Dos dias que ainda faltam
E nos obrigaram a pensar em adeus
Em nunca mais habitar
Em qualquer gesto confortável
Que se recusa nos permitir você
Perde seu direito de não concordar com o fim
Definitivo e cruel
Que por instinto rasgou nosso peito de ausência
No sabor do teu prato
No que sabe e não digo
O que brilhou em teus olhos
E te fez nosso abrigo
Ou desejo de nada
Se nada mais seu, nos arde
Senão essa via covarde
Guiando o presente rumo ao perigo
Porque te ver frágil
Num dia feio sem Sol
Foi o mesmo que abraçar o abismo
E apagar o único farol
Que foi capaz de dedicar
O amor em sua forma e essência
Que não sai de mim, de nós, não sai da gente
Habituado com o amor frequente
Com a presença
Como presente
Que, no meu caso, derramou-se como tinta
A manchar as palavras para que a boca minta
Ao dizer que dá para superar sexta
Quando já era impossível a dor que veio quinta



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