
De quinta a sexta
Wendell Soares
Quinta era pra doer bem mais
Mas a vida trouxe sexta e pronto
Fez do corte aberto algo que pulsa e revira
E onde você repousa não repousa nada mais
E eu desvio do ar pra não antecipar o fim
Que me adentra as narinas e o resto do que é vida
Que cada dia agora me corta
Seja pedra, pó, seja tempo
Ou mesmo anedonia
Onde eu me despeço do destino
Mas em todo caso é tão imenso o pulsar do peito
Que percebi como nenhuma palavra consegue tapar
Ferida de filho
Sangra e escorre essa dor canalha
Entre o errado e o quase possível
Eu sempre te ouço no que ainda me corta
E ouso acreditar que estaremos juntos
Nos dias que ainda agridem
Sem me dar nenhuma trégua
Nem ao menos um gesto confortável
Que me recordam que tudo foi feito
E ao mesmo tempo que evito pensar neste fim
Definitivo e cruel
O pulo neste abismo
É bem melhor que a sua ausência
No sabor dos teu prato
No que sabe e não digo
O que brilha em teus olhos
E te faz abrigo
Eu não quero ser nada
E não sou se me arde
Esta vida covarde
Numa emboscada
Porque te ver frágil
Num dia feio sem Sol
É o mesmo que abraçar o abismo
E apagar o único farol
Que foi capaz de dedicar
O amor em sua forma maior
Que não sai de mim, porém tira
Tudo que você me deu, o que me inspira
Me dando o mais sublime aval de escolher
Como me mato
Ou me torno nulo
E me deixa pronto para ver extinta
Essa dor que ele fez com que eu sinta
Que é melhor o pulo
Do que essa sexta que tem sido pior
Insuportavelmente pior
Que quinta




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