
Depois que acabou a champanhe
Wendell Soares
Tentei olhar de novo pra onde fui feliz
Primeiro, doeu, porque tudo que pude fazer
Foi olhar com raiva para trás e perceber
Que parte, abandonei, outra parte, não quis
Mas não sou especial em admitir isso
É dessa forma que quase todo mundo faz
Uns por interesse, outros porque querem paz
E os mais inocentes, usam como hábito contumaz
Só que de tudo
Eu, que sempre me achei sortudo
Tive de enxergar, antes eu somente via
E ver é olhar as coisas como se quer
Enxergar é engolir o que nos leva ao luto
Então deixei de me pertencer
E a vida, ou algo similar a ela
Avisou que eu deveria escolher
O tempo curto da lâmpada ou a chama da vela
Porque não seria mais seguro
Ignorar que era preciso viver no escuro
E eu respondi: Claro que consigo
Olhei pro lado e tinha tanto amigo
Que não precisei ver nomeado
O sentimento sombrio que sentou do meu lado
Tentei procurar primeiro tudo que era farol
E, de repente, não havia mais luz ou Sol
Porém eu não entendia todo aquele calor
Que já não era humano, era de uma frágil dor
No início, é sempre convincente a nossa coragem
Por isso, enquanto chovia, não pensei na estiagem
O céu da alma nublado e tantos oportunistas
Que no meio da história, deixaram de ser visita
Já tinham usado tudo de mim, então não seria surpresa
Mal terminou o jantar, a maioria se levantou da mesa
Então deixei de me pertencer
E a vida, ou algo similar a ela
Avisou que eu deveria recolher
Cada caco e também cada resto de vela
Porque não seria mais prudente
Ignorar que era um risco evidente
Fosse uma vontade, fosse meu reclame
É sempre o que acontece quando acaba a champanhe
A garrafa quebrada no chão se torna o maior perigo
Ainda mais quando, ao olhar de novo já não havia nenhum amigo
Mas ela estava meio certa
Meio, porque uma porta sempre esteve aberta
E dela, o único motivo que se fazia jus
Foi ele, que jamais apagou sua luz
E, por isso, mesmo machucado, tentei o caminho pra casa
Tentei até curar minhas asas
Mas no mínimo intervalo, numa pequena pausa
Veio a vida e fechou as portas
Fechou as janelas
Me mostrou que pra ela não importa
Se era meu último motivo de ficar de pé
Se aquilo me arrancaria o world
Se me faria perder toda a fé
Se eu estava ainda perdido no caminho
Se eu estava, assustado e sozinho
Ela fez o que quis
E achou errado eu fazer o que consegui
Daí, a luz sumiu e eu caí no abismo
Sim, é fácil entender
Que às vezes é pior viver
Pergunto o porquê
Vale a pena prosseguir
Porque se for por você
Vocês ou os outros iguais
Pra mim é pouco, ficou tarde
Não irei dar convite pra gente covarde
Eu precisei antes, precisei de mais
Eu morri e não é boa hora pro alarde
Se você desejou mas não foi parte de quem faz
E sim
Eu concordo que já fui bem melhor
Muito melhor
E também me causa dó
Ter sido, um dia, página do meu próprio livro
Hoje me bastaria sentir algo, sentir-me vivo
Mas isso também se viu despedaçado
E foi quando não me senti mais errado
E deixei de dar crédito ao mundo
E até com certa paz na consciência
Ficou claro essa falta de coerência
Que nos ensina que juntos, é mais fácil o caminho
Mas no primeiro atalho quer que você se vire sozinho
E isso é bem mais que ironia
Porque é como apagar a vela
Quando não se tem mais
Sequer a luz do dia
Mas quer saber? Ignora a minha queixa
Apenas aproveite sua última chance
E faça como antes, só me deixa
Não se preocupe em me devolver o troco
Estive ocupado morrendo, pouco a pouco
Mas isso também acabou
Eu tô seguindo em frente
Não sei dizer pra onde vou
Mas posso dizer, é pra sempre
(Ê-ô, ê-ô, ê-ô)
Eu nunca digo adeus
(É sempre esta última vez)
Eu
Eu
Eu
O meu lugar sou eu
(Ê-ê)
Eu nunca digo adeus
O meu lugar sou eu




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