Biografia de Elza Soares, a mulher do fim do mundo

Biografias · Por Camila Fernandes

26 de Agosto de 2020, às 12:00

A cantora Elza Soares tem nada menos que 90 anos de idade. Se o tempo de vida impressiona, a voz marcante e a força da artista chamam ainda mais atenção. Contrariando estereótipos, Elza se mantém ativa na música, e cada vez mais empoderada.

Elza Soares biografia
Créditos: Divulgação

Sempre que alguém pensa que ela vai parar, Elza volta com um show, uma live, um clipe ou um novo single. Declarada pelos fãs como patrimônio cultural brasileiro, o nome da cantora se tornou símbolo de resistência — afinal, isso foi o que ela mais fez em toda a sua trajetória: resistir.

Outras grandes cantoras da música brasileira, como Elis Regina e Cássia Eller, não tiveram a mesma sorte e nos deixaram bem mais cedo. Elza recebeu de presente a vida longa, e resolveu presentear o mundo de volta com sua música. 

Quer saber mais sobre a vida e a carreira desse ícone da música nacional? Vem com a gente conferir a biografia de Elza Soares!

Biografia de Elza Soares

São 90 anos de vida, 70 de carreira e uma história tão impactante que fica difícil resumir. Afinal, como diz a música que Chico Buarque compôs especialmente pra ela, Elza Soares é Dura Na Queda.

Elza nasceu no dia 23 de junho de 1930, no Rio de Janeiro. De família humilde, cresceu morando em um cortiço no bairro Água Santa, na capital carioca. Nessa época já gostava da música: cantava quando ia buscar água no poço e com o pai, que tocava violão nas horas vagas.

A infância da menina, entretanto, terminou cedo. Aos 11 anos, Elza Gomes da Conceição foi obrigada a se casar com Lourdes Antônio Soares, um amigo do pai, bem mais velho que ela. Foi nessa época que ela virou Elza Soares.

Menos de um ano depois do casamento, Elza deu à luz ao seu primeiro filho. Nessa época, ela tinha cerca de 12 ou 13 anos. 

Durante a adolescência, transformada em uma mulher adulta pelo casamento precoce, Elza sofreu agressões e violências sexuais que a marcaram pelo resto da vida — e que se transformaram em protestos que ela apresenta por meio de sua música.

Primeiro passo na música

A primeira apresentação pública da Elza Soares não aconteceu por bons motivos: com o filho pequeno doente, sem poder contar com ajuda dos pais ou do marido, a menina se inscreveu para participar do tradicional programa de calouros do radialista Ary Barroso. 

Ary Barroso
Ary Barroso / Créditos: Divulgação

Pode até ser que naquela época ela já tivesse pretensões artísticas, mas o que Elza queria de verdade era o dinheiro dado aos vencedores do programa, para que pudesse cuidar do filho. Ela se apresentou no programa escondida, sem que a família soubesse. 

Planeta fome 

A figura de uma menina minúscula, que tinha só 32kg, usando roupas emprestadas da mãe, presas com alfinetes pra não caírem, chamou atenção do público e do apresentador.

Naquele dia, Elza não só ganhou o prêmio, como também disse uma das frases mais icônicas de sua carreira. 

Ao ser questionada por Ary Barroso sobre “que planeta vinha”, Elza já tinha a resposta na ponta da língua: do planeta fome. Também foi naquele dia que o radialista deu o veredito sobre a carreira de Elza, ao dizer que, naquele momento, nascia uma grande estrela. 

Uma história de muita luta

Infelizmente, a aparição no programa não resolveu os problemas de Elza. Seus dois primeiros filhos morreram ainda bebês, por causa da desnutrição.

Em 1950, teve uma filha sequestrada, e só voltou a reencontrá-la 30 anos mais tarde. Mais ou menos na mesma época, Elza ficou viúva, e teve que fazer de tudo e mais um pouco para sustentar os filhos.

Já na década de 60, Elza Soares participou de outro concurso musical no rádio, e venceu novamente. Dessa vez, ela ganhou um contrato fixo pra se apresentar semanalmente. Com o rádio e as apresentações em casas de show, Elza finalmente conseguiu começar a viver de música. 

Elza Soares quando jovem
Elza Soares no Festival de Musica Popular Brasileira da TV Record em 1968 / Créditos: Divulgação

Casamento com Garrincha e morte de mais um filho

Alguns anos depois, veio o segundo casamento, com o jogador de futebol Mané Garrincha. A relação conturbada durou 16 anos e terminou devido a uma nova onda de agressões.

Novamente, assim como no primeiro casamento, Elza sofreu violência física, que era agravada pelo alcoolismo do marido. 

Mané Garrincha e Elza Soares
Mané Garrincha e Elza Soares / Créditos: Divulgação

Um ano depois da separação, Garrincha faleceu, deixando um filho pequeno com Elza, que ficou conhecido como Garrinchinha. O menino morreu três anos depois, aos nove anos, em um acidente de carro, somando mais uma perda na longa lista de sofrimentos da mãe.

As histórias de violência vividas durante a vida são presentes também nas músicas de Elza. A letra de Maria da Vila Matilde, que se tornou um hino do movimento feminista, é o retrato mais sincero da reação que a cantora sempre teve diante de tudo isso: resistência.

Melhor Cantora do Milênio

A voz rouca e o jeito “exótico”, como a própria Elza se define, sempre foram motivos que chamaram atenção do público e de outros artistas.

Em 2000, Elza Soares recebeu da BBC Londres o título de Melhor Cantora do Milênio. Naquela época, ela já tinha mais de 40 anos de carreira e uma longa lista de sucessos. 

Cada vez mais empoderada e consciente de sua grandeza, Elza seguiu a carreira com grandes parcerias e um sucesso crescente. Em 2015, ela gravou o álbum A Mulher do Fim do Mundo, o primeiro de sua carreira a conter só músicas inéditas.

Um acidente, uma cirurgia e uma promessa

Em 2013, Elza Soares sofreu um acidente no palco e desde então passou a se movimentar com muita dificuldade. Em 2014 ela passou por uma cirurgia em que precisou colocar 8 pinos na coluna.

Apesar de tudo isso, e já aos 90 anos de idade, Elza continua se apresentando e gravando novos sucessos, sob a promessa de cantar até morrer. 

Hoje ela só se apresenta sentada e praticamente imóvel, mas não perde a imponência. Elza Soares resistiu à violência, à fome, ao preconceito e até mesmo ao tempo, para se tornar um ícone da música nacional e um símbolo de luta contra a opressão.

Elza soares show
Créditos: Divulgação

Além da própria história e de toda a sua irreverência, Elza usa as letras de suas músicas como armas de protesto: a música Benedita, por exemplo, conta a história de uma transexual que trabalha com prostituição.

Já seu sucesso mais recente, Negão Negra, gravado em parceria com o cantor Flávio Renegado, é um manifesto contra o racismo.

Conheça o significado de Benedita e de outras músicas com nome de mulher!

Mulheres que fizeram história na música

Agora que você já conhece a biografia de Elza Soares, que tal dar uma olhada em outros nomes da música brasileira?

Assim como a cantora do milênio, outras mulheres incríveis também fizeram história na música!

mulheres na música

Você também pode gostar

Receba os melhores posts do blog em seu e-mail

Assine a newsletter gratuitamente e descubra mais sobre o mundo da música


Por favor, insira um e-mail válido.

Obrigado por assinar a nossa newsletter! 😊

Ops, rolou um erro na inscrição. Tente novamente mais tarde.